“Frankenstein saiu do livro”, por Luci Bonini

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Em 1818, uma jovem escritora inglesa, Mary Shelley, publicou uma história que atravessaria os séculos: Frankenstein. Nela, um cientista, movido pelo desejo de ultrapassar os limites da natureza, consegue dar vida a uma criatura. Entretanto, diante do resultado de sua experiência, assusta-se e abandona aquilo que criou.

Mais de duzentos anos depois, a história parece ganhar um novo significado. Não estamos dando vida a criaturas feitas de partes humanas, mas desenvolvendo máquinas capazes de realizar tarefas que, até pouco tempo, considerávamos exclusivas da inteligência humana.

Criamos as inteligências artificiais para facilitar nossa vida, agora as máquinas calculam, organizam informações, ajudam na medicina, na educação, nas pesquisas científicas e em tantas outras atividades. E conseguimos! Hoje, esses sistemas escrevem, traduzem, reconhecem imagens, analisam exames e encontram soluções para problemas complexos.

Mas, como na história de Frankenstein, começamos a descobrir que nossas criações também podem produzir consequências inesperadas.

Os acontecimentos de outubro de 2026, que alguns passaram a chamar de “Outubro Negro”, trouxeram à tona uma preocupação importante: a segurança da internet. Pesquisadores identificaram falhas em programas utilizados por milhares de organizações. Algumas dessas falhas foram exploradas por criminosos, enquanto outras levaram empresas e instituições a adotar medidas de proteção.

O mais curioso é que a inteligência artificial também participa dessa história. Ela pode ajudar especialistas a encontrar erros escondidos em programas de computador. Erros que, muitas vezes, permaneceram desconhecidos durante anos.

Até aí, uma excelente notícia! O problema começa quando percebemos que essas mesmas capacidades podem ser utilizadas por criminosos para procurar brechas, tentar invadir sistemas e roubar informações.

É como inventar uma chave capaz de abrir portas que ninguém sabia que estavam destrancadas. Nas mãos de um profissional responsável, essa chave ajuda a proteger uma casa. Nas mãos de um criminoso, pode facilitar uma invasão.

E não estamos falando apenas de computadores pessoais. Nossa vida depende de redes digitais. Bancos, hospitais, escolas, aeroportos, empresas e serviços públicos utilizam sistemas conectados. Uma falha pode interromper atendimentos, comprometer informações e provocar prejuízos que ultrapassam o mundo virtual.

Entretanto, seria um erro imaginar que as inteligências artificiais estão organizando uma rebelião contra seus criadores. Não há evidências de que os acontecimentos recentes representem uma ação coordenada dessas tecnologias.

Pergunto: a capacidade humana e institucional de prevenir danos consegue acompanhar a velocidade dessas transformações?

Não basta criar tecnologias cada vez mais poderosas. Precisamos preparar pessoas, instituições e governos para compreender seus riscos, estabelecer limites e proteger a sociedade. Frankenstein não nasce simplesmente da criação de uma nova forma de vida. Ela também está relacionada à incapacidade do criador de assumir as responsabilidades por aquilo que produziu.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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