“Kichute”, por Marcelo Candido

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Quando criança, eu caminhava pelas ruas do meu bairro com os pés descalços, exceto quando ia à escola, à igreja ou a algum compromisso arranjado pelos meus pais. E tinha também outra exceção que era quando a gente ia jogar bola, na rua ou no campinho. Alguns garotos também jogavam descalços, o que era da natureza dos mais fortes, pois imagine um solo pedregoso e desalinhado para esse tipo de atividade de lazer, ainda mais com os pés desprotegidos! Quem chutava a bola de capotão com o bico do pé era, então, um indivíduo quase digno de adoração.

O sol inclemente já era por si um baita desafio para jogar bola; mas a chuva transformava o solo num quiabo. E jogar sobre ele também era um desafio à lei da gravidade e uma imposição de muito trabalho a todos os anjos da guarda que faziam plantão a beira do campo. Gostávamos de comemorar os gols como se fossem dentro dos grandes estádios de futebol com suas arquibancadas lotadas. Terminava o jogo, pés descalços para economizar os calçados de jogar bola.

Mas, como em muita coisa na vida, no futebol da rua ou do campinho havia também um fetiche. O Kichute! O Kichute… Quem não queria ter um? Era tão desejado que servia para o futebol, sim, o futebol, pois jogar bola já não era mais a questão porque o Kichute nos dava a aura de jogadores profissionais. Até para a escola o Kichute ajudava ir, e no caminho as pedras eram chutadas para bem longe. Ter um Kichute era realizar um desejo. Pena que nem todos conseguiam ter um deles, ainda mais quando a família era grande e a renda não permitisse. Até que as ruas foram sendo cobertas por uma massa negra chamada de asfalto, só para desgastar os cravos de nossos Kichutes. Na terra ele vivia melhor, já no asfalto, os cravos eram quase lixados.

Asfalto preto, kichutes pretos, pés quase todos pretos. Os Kichutes acabaram. Os pés descalços também. As melhorias econômicas e a introdução de novos hábitos e costumes vão deixando no passado imagens hoje vistas com certa perplexidade e saudosismo. Porém, embora essas efemérides sejam tão graciosas e importantes, ainda existem muitos problemas que mantêm uma parcela bastante grande da população afastada dos direitos mais básicos. Posto isso, não consigo deixar de sentir uma saudade profunda daquele estado de felicidade jamais reencontrado.

(Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do HojeDiário.com)

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