Ao fechar o verão, as águas de março nem sempre trazem promessas de vida aos nossos corações; às vezes elas nos arrastam, fazendo de nossa existência mero detalhe diante de sua fúria inocente. Torna-se um trágico espetáculo cujo enredo é composto por destruição, desespero e morte.
Quando os assentamentos humanos minimizam a relevância do planejamento urbano, podem entrar em confronto com a natureza do lugar, ficando sujeitos a toda sorte de ocorrências, cujo destino pode ser a desgraça. As águas jamais deveriam ser uma ameaça, pelo contrário, deveriam ser uma dádiva.
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Porém, elas desconsideram obstáculos alheios à sua vontade, fluem segundo sua própria dinâmica, existam ruas, casas ou pontes diante do seu caminho. O ciclo hidrológico tem seu fluxo natural, e entre seus fenômenos está o processo de precipitação. E tal processo é algo previsível, porém, bastante complexo quando as ferramentas necessárias à sua gestão deixam de ser utilizadas a contento.
Se áreas urbanas ou rurais não estiverem devidamente adaptadas ao impacto dos períodos chuvosos aferidos periodicamente, e se não há medidas de contenção de eventuais consequências catastróficas, podem ocorrer prejuízos como aqueles que assistimos recentemente em várias cidades paulistas. O ciclo hidrológico não é uniforme, e embora seja recorrente, pode variar para muito acima do previsto.
Quando isso acontece, pode não haver tempo hábil para que danos sejam evitados. O volume de chuvas, entretanto, é previsível até com certa antecedência, a ponto de permitir que as autoridades emitam alerta de evacuação ou apontem providências no sentido de evitar a ocorrência de danos materiais, ou de sérias ameaças à vida. Contudo, pode não o ser a ponto de garantir em tempo hábil a mobilização das pessoas ameaçadas.
Cumpre lembrar que os efeitos das mudanças climáticas face ao modelo pretérito de ocupação dos territórios podem estar apresentando suas credenciais mais assustadoras. A depender da intensidade das chuvas, fatalmente não haverá condições para que todos os recursos sejam mobilizados a fim de combater seus efeitos mais severos. Em muitos casos os territórios, devida ou indevidamente ocupados, apresentam condições irreversíveis à ocorrência de danos, seja pela imprudência no modo como se deu a ocupação, seja pelas alterações climáticas que possam ter ali alterado as condições do ambiente em que vivem as pessoas.
Existem recursos técnicos disponíveis para que o ciclo hidrológico possa ser efetivamente medido e registrado, permitindo aferir alterações em seu comportamento. E no que diz respeito à medição dos níveis de precipitação são as estações meteorológicas que auxiliam as autoridades para que elas possam realizar ações importantes para a economia e também para determinar atitudes preventivas sobre os locais que possam estar sob risco.
Um grande volume de chuvas, portanto, não pode ser o único fator que justifique os prejuízos sofridos por parte da população de uma cidade. O cuidado com o planejamento urbano oferece grandes contribuições para que as contradições entre o tipo de ocupação e a capacidade de mantê-la, possa encontrar uma equação resolutiva. No limite, ações de remoção são indispensáveis por se tratar da segurança de pessoas.
Para qualquer que seja a solução, não há como dispensar uma adequada e compatível política de habitação cujos parâmetros conservem modelos de acolhimento em caso de ocorrências de desastres resultantes das fortes chuvas. É comum em muitas cidades a prefeitura realizar de forma participativa a elaboração de programas com o objetivo de executar bons instrumentos de planejamento. Espero que os lamentáveis acontecimentos que se repetiram neste ano possam mais uma vez, só que agora de forma definitiva, servir de exemplo para que nunca mais algo previsível traga consequências trágicas.
Mortes e danos materiais em larga escala não podem seguir sendo normalizadas como vimos ocorrer recentemente no litoral norte paulista e em outras cidades na Região Metropolitana de SP. Esperamos, pois, que as águas de março se configurem apenas como a letra de uma das mais belas e conhecidas canções composta no início dos anos 1970 pelo grande e imortal maestro Antônio Carlos Jobim.