“Noventa minutos que ainda param o Brasil”, por Neusa Freitas

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Nos últimos dias, uma dúvida passou a fazer parte do dia a dia de muitos brasileiros.
As empresas são obrigadas a liberar os funcionários para assistir aos jogos da Seleção durante a Copa do Mundo?
Achei curioso.
Antes mesmo de saber quem seria o adversário do Brasil ou de discutir a escalação, muita gente queria saber outra coisa: se poderia assistir ao jogo durante o expediente.
A resposta é não.

A legislação trabalhista não obriga as empresas a liberarem seus funcionários durante os jogos da Copa do Mundo. Quando isso acontece, normalmente é por decisão da própria empresa ou por acordos firmados entre empregadores e trabalhadores, inclusive por meio de convenções ou acordos coletivos.

Mas, enquanto acompanhava esse debate, outra pergunta ficou na minha cabeça.
Como noventa minutos de futebol ainda conseguem mudar a rotina de um país inteiro?

Talvez a resposta esteja nas lembranças que a Copa deixa em cada geração.
Nas ruas pintadas de verde e amarelo.
Nas bandeiras penduradas nas janelas.
Nas famílias reunidas diante da televisão.
Naquela sensação de que, por alguns instantes, o Brasil inteiro parecia respirar no mesmo ritmo.

Mesmo quem passa quatro anos sem acompanhar futebol costuma voltar a vestir a camisa da Seleção quando chega a Copa.
Isso diz muito sobre nós.

Na próxima segunda-feira, enquanto milhões de brasileiros estarão acompanhando a partida, outros milhões seguirão trabalhando.

Enquanto a bola rola, haverá médicos em centros cirúrgicos.
Enfermeiros nos hospitais.
Motoristas conduzindo ônibus.
Policiais patrulhando as ruas.
Funcionários em supermercados, padarias, farmácias, indústrias e tantos outros serviços que simplesmente não podem parar.

Eles também vivem a Copa.
Só que de outra maneira.
Ao mesmo tempo, muitas empresas conseguem adaptar a rotina.
Antecipam o expediente.
Compensam horas.
Reúnem as equipes para assistir ao jogo.

Não porque a lei obriga.
Mas porque entenderam que, quando isso é possível, também vale a pena fortalecer o ambiente de trabalho.
No fim, percebi que essa discussão tem muito menos relação com a legislação do que imaginamos.
Ela fala sobre diálogo, equilíbrio e bom senso.

Nem toda empresa consegue liberar seus funcionários.
Nem todo trabalhador pode deixar seu posto.
E isso faz parte da realidade.

Da mesma forma, quando existe espaço para flexibilizar horários sem comprometer o funcionamento da empresa, essa também pode ser uma boa solução.

Talvez seja justamente por isso que essa conversa volte a cada quatro anos.
Não porque a lei mudou.
Mas porque a Copa continua ocupando um lugar que nenhum outro evento esportivo consegue ocupar entre os brasileiros.

Na terça-feira, todos estaremos de volta às nossas rotinas.
As lojas abrirão.
Os hospitais continuarão atendendo.
As empresas seguirão funcionando.
A vida voltará ao normal.

E, se a Seleção fizer a parte dela, voltaremos um pouco mais felizes, já querendo descobrir quem será o nosso adversário nas oitavas de final.
Porque a Copa passa rápido. Mas, enquanto ela dura, ainda é capaz de fazer milhões de brasileiros olharem para o mesmo lugar. E, em um tempo em que quase tudo nos divide, talvez esse continue sendo o seu maior poder.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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