Quando falamos em câncer de pulmão, a primeira associação costuma ser o cigarro. E há uma razão: o tabagismo continua sendo o principal fator de risco para a doença. Mas existe uma informação que surpreende muita gente: pessoas que nunca fumaram também podem desenvolver câncer de pulmão.
Isso não significa que o cigarro deixou de ser importante. Significa apenas que o câncer é uma doença complexa e pode surgir por diferentes mecanismos.
Se não é o cigarro, o que pode causar?
Entre os principais fatores relacionados ao câncer de pulmão em quem nunca fumou estão a exposição passiva à fumaça do cigarro, poluição do ar, radônio, exposição ocupacional a determinadas substâncias e alterações genéticas e moleculares que aparecem nas próprias células do tumor.
O radônio, por exemplo, é um gás radioativo natural, invisível e sem cheiro, que pode se acumular em determinados ambientes e é reconhecido como fator de risco para câncer de pulmão.
No ambiente profissional, exposições prolongadas a substâncias como amianto, sílica, arsênio e alguns metais também podem aumentar o risco.
A poluição atmosférica também merece atenção. A exposição prolongada a partículas finas presentes no ar está associada ao desenvolvimento de câncer de pulmão, mesmo entre pessoas que nunca fumaram.
A genética do tumor mudou nossa maneira de tratar a doença.
Talvez uma das maiores revoluções dos últimos anos tenha ocorrido dentro do próprio tumor.
Alguns cânceres de pulmão apresentam alterações moleculares específicas, como EGFR, ALK, ROS1, RET, MET, BRAF, HER2, KRAS e NTRK, entre outras.
Essas alterações são particularmente importantes porque algumas funcionam como verdadeiros “motores” para o crescimento do câncer. E, para várias delas, já existem medicamentos específicos.
Por isso, principalmente no câncer de pulmão do tipo adenocarcinoma avançado, realizar uma avaliação molecular adequada pode modificar completamente a escolha do tratamento.
Hoje, dois pacientes com tumores aparentemente semelhantes ao microscópio podem receber tratamentos totalmente diferentes depois da análise molecular.
Quem nunca fumou também precisa prestar atenção aos sintomas.
Existe um problema frequente: a pessoa nunca fumou, começa a apresentar tosse persistente e simplesmente não considera a possibilidade de uma doença pulmonar mais séria.
Isso pode atrasar o diagnóstico.
Tosse que não melhora, falta de ar sem explicação, dor persistente no tórax, rouquidão prolongada, sangue no escarro, infecções pulmonares recorrentes ou perda de peso inexplicada merecem investigação médica.
Isso não significa que toda tosse seja câncer. Na imensa maioria das vezes, não será. O importante é não ignorar sintomas persistentes.
Quem nunca fumou precisa fazer tomografia todo ano?
Em geral, não.
O rastreamento com tomografia de tórax de baixa dose demonstrou benefício principalmente em pessoas com histórico significativo de tabagismo e dentro de determinadas faixas de idade e exposição.
Para quem nunca fumou e não apresenta fatores de risco relevantes, atualmente não existe recomendação para simplesmente realizar tomografias anuais de rotina para procurar câncer de pulmão.
Exames desnecessários também podem encontrar pequenos nódulos benignos, gerar ansiedade e levar a novos exames e procedimentos que talvez nunca fossem necessários.
A decisão deve ser individualizada quando existem exposições ambientais ou ocupacionais importantes, histórico familiar relevante ou outras situações especiais.
E o vape?
Quem nunca fumou não deve começar pelo cigarro eletrônico imaginando que ele seja seguro.
Vapes podem conter nicotina, partículas ultrafinas, metais e outras substâncias potencialmente tóxicas. Ainda não possuímos o mesmo período de acompanhamento de décadas existente para o cigarro tradicional para determinar todo o impacto sobre o risco de câncer.
Portanto, “ainda não sabemos exatamente quanto aumenta o risco” é muito diferente de dizer que é seguro.
O que podemos fazer para reduzir o risco?
Algumas atitudes são simples: não fumar, evitar exposição frequente à fumaça de outras pessoas, não utilizar cigarros eletrônicos, utilizar equipamentos de proteção quando houver exposição profissional a substâncias cancerígenas e procurar avaliação médica diante de sintomas respiratórios persistentes.
Também é importante manter hábitos que reduzem o risco global de câncer e doenças cardiovasculares, como atividade física regular, alimentação equilibrada e controle adequado do peso.
Mas é preciso deixar uma mensagem clara: nem todo câncer pode ser prevenido.
Uma pessoa que nunca fumou, se alimenta bem e pratica exercícios ainda pode desenvolver câncer de pulmão. Não devemos transformar prevenção em culpa.
O cigarro continua sendo, de longe, um dos principais inimigos dos pulmões. Mas ele não é o único.
Nunca ter fumado reduz muito o risco de câncer de pulmão — mas não o torna zero. Por isso, sintomas persistentes precisam ser investigados independentemente do histórico de tabagismo.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




