Falar sobre saúde mental deixou, há muito tempo, de ser uma discussão distante da nossa realidade. Em 2025, mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária foram concedidos no país em razão de transtornos mentais e comportamentais. Entre as principais causas estão os transtornos de ansiedade e os episódios depressivos.
Mas esse cenário preocupante não se restringe aos adultos. Crianças e adolescentes também estão adoecendo emocionalmente. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em março deste ano, mostrou que 28,9% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos disseram ter sentido tristeza na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa. Na rede pública, foram 29,2%. Na particular, 27,2%.
Estamos falando, portanto, de uma realidade presente dos dois lados: nas escolas públicas e nas particulares. E é justamente diante desses números que precisamos perguntar: as nossas escolas estão preparadas para acolher esses alunos?
Fala-se muito sobre inclusão. E ainda bem. A gente conhece a luta de tantas mães de crianças e adolescentes atípicos que enfrentam batalhas diárias para garantir aos filhos respeito, adaptações e o direito de aprender com dignidade. Mas existe outra realidade que também precisa entrar nessa conversa.
Nem todo aluno que necessita de acolhimento terá uma condição que o acompanhará pela vida inteira. Há crianças e adolescentes que, em determinado momento, adoecem emocionalmente e passam a enfrentar dificuldades que antes não existiam. Pode durar anos, alguns meses ou passar depois de determinado período. Enquanto está acontecendo, porém, é real e precisa ser levado a sério.
Imagine um aluno que sempre acompanhou a turma e, por uma questão de saúde, precisou ficar afastado. Quando retorna, encontra o que ficou para trás e tudo aquilo que continuou acontecendo enquanto esteve fora: conteúdos, trabalhos, provas, prazos. Claro que esse aluno precisará retomar sua vida acadêmica. A questão é como.
Colocar tudo sobre ele de uma vez pode resolver as pendências da escola. Mas e o aluno? Voltar às aulas, conversar com os amigos, sorrir e aparentemente estar bem não significa que esteja pronto para suportar imediatamente a mesma carga de antes. Nem todo sofrimento aparece por fora.
E, quando existem laudos, relatórios e acompanhamento profissional, as orientações médicas e dos demais profissionais responsáveis por aquele aluno precisam ser respeitadas. Isso não significa deixar de ensinar, avaliar ou cobrar. Significa entender que acolhimento não é privilégio e que, em alguns momentos, será necessário fazer diferente. Pode ser preciso reorganizar uma avaliação, estabelecer outro prazo, distribuir melhor as atividades ou permitir uma retomada mais gradual.
Pode dar mais trabalho? Pode. Mas inclusão não pode funcionar apenas quando é fácil. Também não pode ser uma palavra bonita em um projeto pedagógico, numa reunião ou em um cartaz no corredor.
A escola ensina respeito, convivência e empatia. Precisa demonstrar esses mesmos valores quando um aluno necessita deles. Porque é muito fácil dizer que uma escola acolhe quando ninguém precisa ser acolhido. A gente descobre se ela realmente acolhe quando aparece um aluno que exige dela uma postura diferente.
E existe a família do outro lado. As mães de filhos atípicos conhecem há muito tempo o peso de lutar por direitos que já deveriam estar assegurados. Mas há também mães que, de repente, veem um filho adoecer emocionalmente e entram em uma realidade que jamais imaginaram viver.
Precisam procurar ajuda, acompanhar o tratamento, reorganizar a rotina e tentar preservar a vida escolar daquele filho enquanto também lidam com seus próprios medos. E, muitas vezes, ainda precisam explicar, insistir e cobrar. É para essas mães, e para tantas outras que lutam diariamente pelos filhos, que também precisamos olhar.
E que nenhuma mãe se sinta errada por questionar ou exagerada por insistir. Se algo não estiver certo, procure orientação, pergunte, cobre. Os direitos dos seus filhos precisam ser respeitados. Uma mãe não deveria precisar transformar cada direito em uma batalha.
E também não podemos colocar toda essa responsabilidade sobre os ombros dela. A defesa dos direitos de crianças e adolescentes é responsabilidade de todos nós: da família, da escola, do poder público e da sociedade. A escola precisa ser parceira nesse processo. Uma família que já está tentando ajudar um filho a atravessar um período difícil não deveria encontrar justamente ali mais uma barreira.
Nenhuma criança ou adolescente pode ter seus direitos diminuídos porque está mais vulnerável. E nenhum aluno deveria se sentir um problema para a escola porque adoeceu.
A escola tem conteúdo para ensinar, calendário para cumprir, avaliações para aplicar e resultados para alcançar. Tudo isso importa. Mas, antes do conteúdo que precisa ser recuperado, existe uma pessoa que também pode estar tentando se recuperar.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




