Alguns números explicam o Brasil melhor do que muitos discursos.
As mulheres representam 52,65% do eleitorado brasileiro.
Entre aquelas com 25 anos ou mais, 20,7% concluíram o ensino superior, contra 15,8% dos homens.
E dados mais recentes apontam que 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.
Foi esse retrato do Brasil que me fez refletir.
Não sobre uma declaração específica, mas sobre algo que considero muito mais preocupante: a facilidade com que discursos absurdos ainda circulam e correm o risco de serem naturalizados.
Os números mostram a dimensão da presença feminina na sociedade brasileira.
Estamos falando de mulheres que trabalham, estudam, empreendem, criam filhos, sustentam famílias e tomam decisões todos os dias.
Também ajudam a definir os rumos políticos do país.
Não menciono os dados sobre escolaridade porque acredito que diploma faça alguém votar melhor.
Seria absurdo pensar assim.
Menciono porque ainda há quem tente tratar as mulheres como menos preparadas para compreender a política ou participar das decisões do país.
E é justamente aí que os números ganham importância.
Não para medir a capacidade de ninguém, mas para mostrar a distância entre certos discursos e o Brasil real.
Acompanho eleições há muitos anos e nunca encontrei “o voto das mulheres”.
Encontrei mulheres com histórias, prioridades, valores e convicções políticas diferentes.
Algumas pensam como eu, outras não, e é exatamente assim que funciona uma democracia.
A força das mulheres não está em pensar da mesma forma ou apoiar os mesmos candidatos.
Está na liberdade de cada uma para decidir.
Curiosamente, quase ninguém fala em “voto masculino”.
Talvez porque ninguém espere que milhões de homens pensem exatamente da mesma forma.
Quando um homem escolhe um candidato, sua decisão costuma ser tratada como individual.
Quando mulheres fazem escolhas que alguém desaprova, ainda existe quem tente transformar essas decisões em uma suposta incapacidade feminina.
Discordar de um voto faz parte da democracia.
O problema começa quando a discussão deixa de ser sobre candidatos, partidos ou ideias e passa a questionar a capacidade de alguém simplesmente por ser mulher.
A partir daí, o preconceito fica evidente.
Talvez seja esse o ponto que algumas pessoas ainda tenham dificuldade de compreender.
Mulheres não formam um bloco único, não pensam da mesma maneira e nem sempre escolhem aquilo que esperam delas.
No fim das contas, essa discussão nunca foi apenas sobre voto.
Ela diz muito sobre o risco de aceitarmos como normal um discurso que tenta diminuir milhões de brasileiras, mesmo diante de uma realidade que mostra o tamanho de sua presença na sociedade.
E é justamente isso que me preocupa.
Quando um absurdo se repete tantas vezes que já não causa o mesmo incômodo, começamos a correr o risco de tratá-lo como normal.
Porque quem subestima as mulheres não entende o Brasil de hoje.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




