Todos os dias, mais de 200 pessoas desaparecem no Brasil.
Enquanto você lê esta coluna, alguma família pode estar registrando um boletim de ocorrência. Outra pode estar percorrendo hospitais. Uma terceira estará olhando para o celular, esperando uma ligação que talvez nunca chegue.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou 84.760 desaparecimentos em 2025. Não são apenas números. São milhares de famílias que acordam e dormem todos os dias carregando a mesma pergunta: onde está?
Ao longo da minha trajetória como jornalista, perdi a conta de quantas vezes publicamos fotos de pessoas desaparecidas.
A cena quase sempre é a mesma.
Uma família desesperada.
Uma fotografia.
Um pedido de ajuda.
E a esperança de que alguém reconheça aquele rosto.
Sempre tratei essas histórias com muito respeito e sensibilidade, porque nunca enxerguei um desaparecimento como apenas mais uma notícia. Por trás de cada fotografia, existe uma família que também parou no tempo.
Algumas pessoas voltaram para casa.
Outras, não.
E talvez seja justamente aí que comece a parte mais difícil.
Quando a notícia deixa de circular, a família continua procurando.
Foi essa realidade que, nesta semana, chegou ainda mais perto de mim.
Meu tio, Adão, de 74 anos, desapareceu em Pernambuco.
Ao ver a angústia da minha família, compreendi, de forma ainda mais profunda, que o desaparecimento é diferente de qualquer outra perda.
Ele não permite despedidas.
Não permite respostas.
Não permite que a vida siga em frente.
Quem espera por alguém desaparecido acorda imaginando onde essa pessoa está. Se está com frio. Se está com fome. Se precisa de ajuda.
Cada ligação interrompe a respiração.
Cada mensagem renova uma esperança que, às vezes, dura apenas alguns segundos.
É uma dor permanente.
Quase sempre silenciosa.
Talvez por isso tanta gente passe por uma publicação sobre uma pessoa desaparecida sem dar a devida importância.
É só mais uma foto no feed.
Só que, para quem está procurando, aquela fotografia pode significar tudo.
Pode ser o olhar certo.
A informação que faltava.
O compartilhamento que fará aquela imagem chegar a quem realmente precisava vê-la.
No jornalismo, aprendemos que uma notícia informa.
Mas algumas fazem muito mais do que isso.
Elas aproximam famílias.
Elas devolvem esperança.
E, às vezes, devolvem alguém para casa.
Enquanto esta coluna era finalizada, recebemos a notícia que tanto esperávamos. Meu tio foi encontrado em uma área de mata, graças à busca incansável da família, à solidariedade de amigos maravilhosos e ao trabalho do Corpo de Bombeiros. Ele foi socorrido e hospitalizado. Infelizmente, durante a madrugada, não resistiu e faleceu.
Em meio à dor da despedida, fica a nossa profunda gratidão a todos que participaram das buscas, compartilharam informações, oraram e não desistiram de procurá-lo.
A dor que a minha família viveu reforçou uma certeza: nenhuma família deve enfrentar essa espera sozinha.
Toda ajuda importa. Toda informação pode fazer a diferença. Toda mobilização é um gesto de humanidade.
Por isso, da próxima vez que uma fotografia de uma pessoa desaparecida aparecer na sua tela, não passe por ela com a mesma pressa com que desliza o dedo pelo celular. Compartilhe. Às vezes, um gesto que leva apenas alguns segundos pode representar a resposta que uma família espera há dias, meses ou até anos.
Pode parecer apenas mais uma publicação. Para alguém, ela pode ser a única esperança de reencontrar quem ama.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




