Existe uma forma de arrogância que aprendeu a falar a linguagem da empatia.
Ela não chega impondo. Chega aconselhando.
Em poucos minutos, alguém que conhece apenas um fragmento da sua história passa a acreditar que compreende tudo e apresenta a solução que, na própria cabeça, resolveria o problema. E a cena se repete com frequência.
Quem vive essa realidade há anos ainda tem dúvidas. Quem acabou de chegar já tem todas as respostas.
Todo mundo tem direito à própria opinião. O problema começa quando ela invade a intimidade do outro e transforma uma realidade que desconhece em objeto de julgamento.
De onde vem tanta certeza? Em que momento algumas pessoas passaram a acreditar que têm o direito de ocupar uma dor que nunca foi delas? Não para compreendê-la, mas para dizer como ela deveria ser vivida.
Existe uma linha muito clara entre estender a mão e subir em um pedestal. Quem sobe no pedestal deixa de enxergar a pessoa que está à sua frente e passa a enxergar apenas a própria necessidade de ter razão.
É justamente aí que o conselho deixa de ser um gesto de cuidado. Passa a ser uma demonstração de superioridade.
Há quem aconselhe porque deseja ajudar. Mas também existe quem aconselhe para reafirmar a própria superioridade. Nesse momento, a conversa deixa de ser sobre quem enfrenta a dificuldade e passa a ser sobre quem precisa provar que faria melhor.
Isso não é empatia. É vaidade.
O mais inquietante é que esse comportamento costuma vir acompanhado de uma aparência de sensatez. Quem o pratica acredita que foi firme, sensato e disse exatamente o que precisava ser dito.
Enquanto isso, quem ouviu sai da conversa fazendo uma única pergunta:
“Foi isso mesmo que eu ouvi?”
É difícil acreditar que alguém se sinta tão à vontade para invadir uma realidade que desconhece completamente. Impressiona a facilidade com que algumas pessoas transformam poucos minutos de conversa em uma sentença, como se a experiência de uma única pessoa fosse suficiente para explicar a vida de todas as outras.
A vida dos outros nunca cabe dentro da nossa.
No fim, a vida também educa pelos maus exemplos. Há encontros que não deixam boas lembranças. Deixam algo mais valioso: a absoluta certeza de como jamais devemos tratar alguém.
Porque nenhuma profissão, nenhum cargo, nenhuma experiência e nenhuma posição de autoridade dão a alguém o direito de ocupar a dor do outro com a arrogância de quem acredita que sabe mais do que quem a vive.
E, se existe um lado libertador em cruzar o caminho de pessoas assim, é este: elas nos mostram, com uma clareza quase brutal, o tipo de pessoa que não queremos ser.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




