“A fauna humana no meu feed I”, por Luci Bonini

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Outro dia eu estava navegando inocentemente pelo Instagram e pelo Facebook. Digo “inocentemente” porque todos sabemos que ninguém entra numa rede social para permanecer cinco minutos. Você abre o aplicativo para ver uma mensagem e, quando percebe, já assistiu a uma senhorinha fazendo pão na roça, a um gato derrubando um vaso, a uma previsão sobre o fim do mundo e a alguém garantindo que três ingredientes misturados numa caneca mudarão para sempre a sua vida. Foi então que comecei a perceber uma coisa curiosa, há tipos específicos de personagens… Sim todos são personagens como as da literatura… ninguém ali é aquilo todo o tempo.

Então vamos lá… Me veio à mente os ensinamentos de Jung que chamou de arquétipos certas imagens e padrões primordiais que atravessam culturas e reaparecem na experiência humana. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, mas vamos brincar com os arquétipos junguianos.

Comecei pelos Profetas. Eles sabem o que acontecerá amanhã, no próximo mês e, alguns mais ousados, no fim dos tempos. Há profetas religiosos, econômicos, políticos, climáticos e cósmicos. Alguns consultam escrituras; outros, gráficos; outros, estrelas. E existem aqueles que simplesmente sabem. Normalmente começam com uma frase inquietante: “Preste atenção no que vai acontecer nos próximos dias”. Às vezes dão data precisas do próximo terremoto…

Primos próximos são os Alarmistas. Para eles, alguma coisa terrível está sempre prestes a acontecer. Uma tempestade jamais vista, uma crise, uma doença, um colapso financeiro ou uma conspiração internacional. Geralmente possuem informações que “a mídia não quer que você saiba” e recomendam que você assista ao vídeo rapidamente, “antes que apaguem” … mas um mês depois o vídeo passa no seu feed de novo.

Depois aparecem os Saudosistas, pelos quais confesso certa simpatia. Mostram brinquedos antigos, telefones de disco, máquinas de escrever, discos de vinil, merendas escolares e crianças brincando na rua. “Quem teve infância de verdade vai lembrar.” E lá vamos nós para um mundo em que a avó fazia bolo, ninguém tinha celular e aparentemente todas as tardes eram ensolaradas. Nesse território também vivem as Avós Universais. Algumas são realmente avós; outras apenas herdaram seus segredos. Fazem bolo de fubá, broa, pão caseiro, doce de leite e receitas que começam com “minha avó fazia assim”. Ao lado delas surgiram os Alquimistas da Cozinha Rápida, capazes de transformar banana, ovo e aveia em qualquer coisa. “Só três ingredientes!” tornou-se praticamente uma filosofia de vida.

Há também os Curadores da Infância. Resgatam amarelinha, bolinha de gude, pipa, carrinho de rolimã, banho de mangueira e brincadeiras que pareciam esquecidas. Talvez estejam fazendo, sem saber, pequenos arquivos digitais da memória cotidiana.

Talvez nossas redes sociais sejam menos modernas do que gostamos de imaginar. O contador de histórias ganhou câmera, o oráculo ganhou seguidores, o bufão descobriu os vídeos curtos, o artista ganhou quinze segundos e o profeta finalmente encontrou uma audiência que nunca dorme. Até os animais vieram conosco.

No fundo, talvez o algoritmo acredite que esteja aprendendo quem somos enquanto registra nossos cliques, preferências e permanências diante da tela, mas, enquanto ele nos cataloga, nós também podemos observá-lo. E pensei que entre uma receita de bolo, uma previsão apocalíptica, uma discussão política e um gato dentro de uma caixa, a humanidade continua contando histórias sobre si mesma… Me ajude a melhorar esses arquétipos….

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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