“Você se lembra em quem votou para deputado federal?”, por Neusa Freitas

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Você se lembra em quem votou para deputado federal nas últimas eleições? Pense um pouco antes de responder. Não estou perguntando em quem pretende votar agora. Estou falando daquele voto de quatro anos atrás. Lembra do nome? E, se lembra, acompanhou o que essa pessoa fez depois da eleição?

A pergunta parece simples, mas diz muito sobre a nossa relação com o voto. Durante a campanha, discutimos política, ouvimos propostas, recebemos vídeos, acompanhamos candidatos e apertamos o “Confirma”. Depois, para muita gente, aquele nome simplesmente desaparece da memória. Só que o mandato não desaparece. Ele continua por quatro anos.

No domingo passado, comecei aqui uma reflexão sobre a responsabilidade de quem vota. E quero seguir, até as eleições, falando sobre os cargos que estarão na urna, respeitando justamente a ordem em que faremos nossas escolhas. Não para dizer em quem votar. Mas para refletir sobre quem estamos escolhendo, para fazer o quê e o que podemos cobrar depois.

E a primeira escolha na urna será para deputado federal. A Câmara dos Deputados é formada por 513 parlamentares. São Paulo elege 70 deles, a maior bancada do país. O mandato é de quatro anos e, entre suas principais atribuições, estão legislar, fiscalizar o Poder Executivo e participar das decisões relacionadas ao Orçamento da União. É muito poder para um nome que, muitas vezes, esquecemos pouco tempo depois da eleição.

Talvez, então, antes de escolher o deputado federal de 2026, valha a pena olhar para trás. Se você se lembra em quem votou em 2022, procure saber o que aconteceu com aquele voto. Seu candidato foi eleito? Se foi, você acompanhou o mandato? Sabe como ele votou em questões importantes? Conhece alguma proposta que apresentou? Sabe quais posições assumiu durante esses quatro anos?

Não é necessário concordar com tudo o que um parlamentar fez. A questão aqui é outra: nós acompanhamos quem escolhemos? E, se você não consegue lembrar em quem votou, talvez isso também mereça uma reflexão. Porque daqui a pouco estaremos fazendo essa escolha novamente.

Entre os candidatos estarão deputados tentando a reeleição, pessoas que já exerceram outras funções públicas e também nomes que nunca tiveram mandato. Ser novo na política não é qualidade automática. Ter experiência também não é.

Quem já exerceu mandato tem uma trajetória pública que pode ser analisada. O que fez? Como votou? O que defendeu? Houve coerência entre aquilo que prometeu e aquilo que efetivamente fez?

Para quem nunca teve mandato, os critérios são outros. Qual é sua trajetória profissional e pública? O que fez antes de se tornar candidato? Quais causas defendia antes da campanha? Conhece o cargo que pretende ocupar? Suas propostas fazem sentido para um deputado federal?

E, para todos, novos ou experientes, vale conhecer a vida pregressa. Currículo não é apenas diploma. É trajetória, experiência, coerência e aquilo que a pessoa construiu antes de aparecer pedindo o nosso voto.

Também não podemos confundir popularidade com preparo. Um candidato pode ter milhares de seguidores, comunicar-se muito bem e produzir vídeos que viralizam. Mas eleição não é uma seleção de quem comunica melhor. É a escolha de quem terá poder para votar em nosso nome. E esse poder será exercido durante quatro anos, inclusive sobre assuntos que nem sequer estão no debate eleitoral de hoje. É por isso que conhecer propostas é importante, mas conhecer trajetória e posicionamentos também é.

Há ainda um comportamento bastante comum quando a eleição se aproxima. Candidatos a deputado começam a circular com muito mais frequência pelas cidades. Participam de eventos, visitam bairros e aparecem ao lado de prefeitos, vereadores e lideranças. Faz parte da campanha.

Mas também podemos perguntar: onde essa pessoa estava antes de precisar do meu voto? Qual é sua relação com a nossa região? Conhece nossos problemas? Já demonstrava interesse por eles antes da campanha?

Não se trata de exigir que um deputado federal pertença a uma única cidade. Ele representa a população e participa de decisões de alcance nacional. Trata-se de olhar para além da fotografia eleitoral. E de não terceirizar a escolha.

Um prefeito pode indicar. Um vereador pode apoiar. Uma liderança pode pedir seu voto. Alguém em quem você confia pode recomendar um nome. Considere tudo isso. Mas pesquise você também.

Podemos ter lado político, preferência partidária e convicções. Isso faz parte da democracia. Mas ter lado não significa deixar de questionar quem está do nosso lado.

Campanha eleitoral é justamente o momento em que todo candidato procura apresentar sua melhor versão. O eleitor precisa conhecer um pouco além dela. Não existe candidato perfeito. Também não existe pesquisa capaz de garantir que alguém exercerá um bom mandato. O que podemos evitar é entregar quatro anos de representação a alguém sobre quem praticamente nada procuramos saber.

No dia 4 de outubro, deputado federal será o primeiro voto na urna. Daqui a quatro anos, quando alguém perguntar em quem você votou para deputado federal em 2026, espero que a resposta não seja apenas um nome. Espero que você também consiga dizer que acompanhou o que essa pessoa fez com o seu voto.

Porque escolher é apenas o começo. O voto dura alguns segundos. A nossa responsabilidade sobre ele deveria durar quatro anos.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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