O Brasil é um país onde muitas pessoas têm o hábito de tomar medicamentos por conta própria. Seja para aliviar uma dor de cabeça, tratar uma gripe, combater uma inflamação ou até mesmo emagrecer, é cada vez mais comum recorrer a remédios sem uma avaliação médica adequada.
O problema é que essa prática, aparentemente inofensiva, pode trazer consequências graves para a saúde.
A facilidade de acesso aos medicamentos, a influência das redes sociais e a divulgação de tratamentos por pessoas sem formação médica contribuem para um cenário preocupante: cada vez mais indivíduos utilizam substâncias sem conhecer seus riscos, contraindicações ou possíveis interações.
Um medicamento que funciona para uma pessoa pode ser perigoso para outra.
Anti-inflamatórios, por exemplo, quando utilizados de maneira inadequada, podem provocar sangramentos gastrointestinais, lesões renais e descompensação da pressão arterial. Analgésicos também oferecem riscos, especialmente quando consumidos em doses elevadas ou associados a outros medicamentos.
Outro problema importante é o uso indiscriminado de antibióticos. Além de não serem eficazes contra infecções virais, como gripes e resfriados, seu uso inadequado contribui para o desenvolvimento da resistência bacteriana, considerada uma das grandes ameaças à saúde pública mundial.
Nos últimos anos, também observamos o crescimento do consumo de medicamentos para emagrecimento, muitas vezes adquiridos sem prescrição, sem acompanhamento profissional ou por canais de procedência duvidosa. Embora existam tratamentos modernos e eficazes contra a obesidade, sua utilização exige avaliação individualizada, acompanhamento e atenção aos possíveis efeitos adversos.
Na oncologia, os riscos da automedicação podem ser ainda maiores.
Pacientes em tratamento contra o câncer frequentemente utilizam medicamentos que exigem cuidados específicos. A associação com anti-inflamatórios, suplementos, produtos naturais ou outras substâncias pode aumentar a toxicidade, provocar interações medicamentosas e comprometer a segurança do tratamento.
É importante compreender que até mesmo produtos classificados como naturais podem causar efeitos adversos. Natural não significa necessariamente seguro.
Outro aspecto preocupante é a utilização de medicamentos para mascarar sintomas persistentes. Uma dor abdominal recorrente, uma alteração intestinal prolongada ou um sangramento inexplicado não devem ser tratados indefinidamente com remédios comprados na farmácia. Esses sintomas podem representar manifestações de doenças que precisam ser diagnosticadas precocemente.
Isso não significa que todo medicamento deva ser evitado ou que qualquer sintoma exija uma consulta de emergência. Significa que o uso responsável depende de orientação adequada, respeito às doses recomendadas e reconhecimento dos sinais de alerta.
Precisamos fortalecer a educação em saúde e combater a ideia de que tomar um medicamento é sempre a solução mais rápida e eficiente.
A medicina evoluiu extraordinariamente nas últimas décadas. Temos tratamentos capazes de controlar doenças crônicas, prolongar a vida e curar enfermidades que antes eram consideradas fatais. Entretanto, todos esses avanços dependem de uma utilização responsável.
O melhor medicamento não é o mais moderno, o mais caro ou aquele que está fazendo sucesso nas redes sociais. É aquele que possui indicação correta para cada paciente, na dose adequada e com acompanhamento apropriado.
Cuidar da saúde não significa simplesmente combater sintomas. Significa compreender suas causas, prevenir complicações e tomar decisões fundamentadas na ciência.
A automedicação pode parecer uma solução simples, mas suas consequências nem sempre são simples de tratar.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).





