Um curto-circuito em uma composição da Linha 12-Safira provocou um incêndio e desencadeou um colapso na operação ferroviária, interrompendo a circulação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. Milhares de passageiros ficaram presos em diferentes composições, sem conseguir seguir viagem ou voltar para casa. O incidente provocou a paralisação do sistema, obrigou a evacuação de trens e expôs usuários a uma situação de risco. O que provocou o curto-circuito ainda é objeto de investigação.
Mas existe uma pergunta que nunca dependeu dessa investigação:
Quem tinha a obrigação de garantir a segurança operacional do sistema e dos passageiros?
Nos primeiros momentos após o incidente, lideranças políticas passaram a levantar publicamente a hipótese de sabotagem, antes mesmo da conclusão da investigação técnica. A possibilidade precisa ser apurada, como qualquer outra. O problema surge quando uma hipótese passa a ocupar o centro do debate e acaba desviando a atenção daquilo que já estava diante dos olhos de todos.
O sistema entrou em colapso. Milhares de passageiros foram expostos a uma situação de risco. E isso não é hipótese. É fato.
Como um sistema de transporte chegou a esse ponto?
Essa resposta pertence à investigação técnica.
Independentemente dessa resposta, os fatos daquele dia permanecem incontestáveis.
Havia milhares de pessoas dentro dos trens.
Pessoas que saíram de casa para trabalhar, estudar, cumprir compromissos ou simplesmente voltar para casa e, de repente, viram-se cercadas pelo fogo, pela fumaça e pelo pavor, ou presas em composições que deixaram de funcionar após o colapso do sistema elétrico.
Muitas não conseguiram abrir as portas pelos botões de emergência após o desligamento da energia. Com a interrupção do sistema elétrico, também ficaram sem ar-condicionado.
Passageiros precisaram ser retirados de vagões parados em locais elevados, enfrentaram dificuldades para descer das composições, atravessaram pontes e caminharam por quilômetros sobre os trilhos até encontrar um local seguro. Entre eles havia crianças, idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida, para quem uma evacuação nessas condições representava um desafio ainda maior.
Não era apenas um problema operacional.
Não era apenas um transtorno no transporte público.
Era uma situação de risco concreto à integridade dos passageiros.
Poderia, sim, ter acontecido uma tragédia.
Felizmente, não aconteceu.
Mas o fato de não haver vítimas não torna o episódio menos grave. Ao contrário. Mostra o quanto milhares de pessoas foram expostas a uma situação que jamais deveria fazer parte da rotina de quem depende do transporte público.
Essas cenas aconteceram.
E são graves por si sós.
Se amanhã ficar comprovado que houve sabotagem, os responsáveis deverão ser identificados e punidos com todo o rigor da lei. Se a investigação concluir que o curto-circuito teve origem em falhas de manutenção ou em qualquer outro fator, as responsabilidades também deverão ser apuradas.
O episódio também expôs outra fragilidade. Depois do colapso, a Artesp determinou que a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) voltasse a atuar na operação das linhas por até 90 dias. A decisão evidencia que o problema ultrapassa as causas do curto-circuito. Também coloca em discussão a capacidade de gestão, fiscalização e resposta da concessionária diante de uma crise.
As causas do curto-circuito serão esclarecidas pela investigação. Se houve sabotagem, ela deverá ser comprovada. Mas nenhuma hipótese pode servir como cortina de fumaça para esconder um fato incontestável: houve um colapso operacional, milhares de pessoas foram expostas a risco concreto, e a segurança operacional do sistema e dos passageiros era responsabilidade de quem assumiu sua operação.
Naquela manhã, o sistema entrou em colapso.
E, quando um sistema entra em colapso, não basta explicar as causas. É preciso responder pela segurança das pessoas que confiam nele.
Independentemente dos motivos, que serão esclarecidos pela investigação, o que não muda é que a responsabilidade pela segurança operacional do sistema e dos passageiros não depende do resultado dessa apuração. Ela existia antes do curto-circuito, permaneceu durante toda a emergência e continuará existindo depois que todas as causas forem oficialmente esclarecidas.
Porque a responsabilidade não pega fogo.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




