“Minha terra tem palmeiras onde ainda canta o sabiá.”, por Luci Bonini

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“Meu ipê floresceu. Não pediu licença ao inverno, simplesmente amanheceu vestido de flores. Olhei para ele e, não sei exatamente por que, lembrei-me de Gonçalves Dias: ‘Minha terra tem palmeiras…’.”
Mas tem também ipês que, por alguns dias do ano, aparecem e pintam de amarelo, de roxo e de rosa as estradas. Tem araucárias desenhando o horizonte do Sul, mandacarus resistindo ao sol da Caatinga, buritis acompanhando as veredas e manguezais vivendo nesse território indeciso onde a terra encontra o mar.
Gonçalves Dias estava certo. Nossas aves gorjeiam por aqui como não gorjeiam lá. Talvez apenas não tenha tido tempo de dizer que, nesta terra imensa, cada canto encontra outro canto, cada paisagem parece esconder uma paisagem diferente e o Brasil, quando pensamos que finalmente conseguimos defini-lo, escapa novamente de nossas palavras.


Minha terra tem florestas… mas tem também campos, serras, chapadas, restingas, dunas e alagados. Tem o silêncio monumental da Amazônia e o estalo dos galhos secos no Cerrado. Tem a exuberância do Pantanal quando as águas chegam e a extraordinária resistência da Caatinga quando elas demoram. Tem Mata Atlântica agarrada às serras, Pampas estendidos até onde os olhos alcançam e um litoral tão comprido que o mesmo oceano parece assumir diferentes personalidades ao tocar nossas praias.
E tem rios…rios que atravessam florestas, cidades e histórias. Alguns imensos, outros pequenos. Rios de águas escuras, barrentas, transparentes. Rios que alimentam, transportam, separam e aproximam. Rios que guardam histórias muito anteriores às nossas e que continuam correndo, apesar de tudo o que fazemos para interrompê-los.
Mas talvez a maior diversidade desta terra não possa ser vista apenas do alto de uma montanha ou da janela de um avião, ela caminha pelas ruas… minha terra tem muitos povos.

Antes que essas terras recebessem o nome de Brasil, inúmeras nações indígenas já conheciam seus rios, plantas, animais, ciclos e caminhos. Depois vieram homens e mulheres arrancados da África, trazendo consigo memórias, saberes, ritmos, sabores, religiosidades e formas de compreender o mundo que se entranhariam profundamente na cultura brasileira. Vieram portugueses e, com o passar dos séculos, italianos, espanhóis, alemães, japoneses, árabes e tantos outros povos. Vieram também aqueles que continuam chegando, porque um país nunca termina de ser construído.
E desse encontro — tantas vezes belo, tantas outras marcado pela violência e pela desigualdade — nasceu uma cultura que não cabe em uma única definição.

Minha terra tem tambores e violas, tem maracatu, samba, frevo, carimbó, fandango, jongo, moda de viola e tantos outros sons. Tem festas que atravessam séculos, procissões que tomam as ruas, folias que caminham de casa em casa, bois que dançam, bandeiras que percorrem cidades, congadas, cavalhadas, festas juninas, rodas, cortejos e celebrações nas quais o sagrado e o profano aprenderam a caminhar lado a lado.
Minha terra também tem muitos sabores… tem mandioca, milho, pequi, dendê, pinhão, açaí, erva-mate. Tem pão de queijo, acarajé, tacacá, cuscuz, moqueca e uma infinidade de receitas que contam histórias antes mesmo da primeira garfada. Porque cozinhar também é uma maneira de guardar memória.

E tem palavras. Talvez seja essa uma de nossas paisagens mais bonitas.
Falamos português, sim. Mas quantos portugueses existem dentro do português brasileiro? Há palavras indígenas pronunciadas todos os dias sem que percebamos sua origem. Há palavras africanas incorporadas tão profundamente à nossa língua que já não imaginamos viver sem elas. Há sotaques que mudam a poucas centenas de quilômetros de distância. Há lugares onde uma mesma coisa recebe três, quatro, cinco nomes diferentes.
Talvez por isso seja tão difícil responder à pergunta: afinal, o que é o Brasil?

O Brasil é floresta?
Também.

É sertão?
Também.

É litoral, montanha, cerrado, pampa, caatinga, mangue e pantanal?
Tudo isso.

Mas é sobretudo a convivência — nem sempre pacífica, nem sempre justa — entre diferenças.
Somos um país que não pode ser contado no singular.
Nossa natureza é plural. Nossa cultura é plural. Nossas ancestralidades são plurais. Nossos sotaques, crenças, festas, músicas, cozinhas e maneiras de compreender o mundo são plurais, por isso, quando alguém me perguntar novamente onde canta o sabiá, talvez eu responda: Em muitas terras, porque minha terra tem palmeiras, sim, mas, sobretudo,
minha terra tem muitas terras.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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