“A eternidade de um dia comum”, por Luci Bonini

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Hoje não aconteceu nada extraordinário. O sol nasceu sem pedir aplausos depois de dias de chuva… Os pássaros cantaram, as flores devem ter desabrochado por aí, afinal a primavera se aproxima. A luz entrou pela janela e repousou sobre os móveis, como faz todos os dias. Em algum lugar, a chuva tocou a terra; em outro, uma árvore ofereceu sombra a alguém. As estrelas, embora escondidas pelo céu claro, continuaram silenciosamente em seus lugares.
Também nós seguimos vivendo. Conversamos com pessoas queridas, ouvimos vozes familiares, dividimos o alimento, o trabalho, as pequenas preocupações e os afetos de sempre. Talvez não tenhamos percebido, mas houve eternidade nesses instantes. Porque amar alguém é, de algum modo, desejar que o tempo se esqueça de passar.


Sabemos que somos finitos. Talvez seja justamente essa consciência que torne a vida tão preciosa. Nada permanece exatamente como está: o dia termina, as estações mudam, os corpos envelhecem e as pessoas seguem caminhos que nem sempre podemos acompanhar. Entretanto, alguma coisa permanece. Um gesto de cuidado, uma palavra oferecida no momento certo, uma lembrança, a marca delicada que deixamos uns nos outros.


Ser eterno talvez não signifique viver para sempre. Talvez signifique participar daquilo que continuará existindo depois de nós: a natureza, a memória, o amor, a luz que recebemos e entregamos.


Por isso, hoje agradeço. Não por um acontecimento excepcional, mas por aquilo que tantas vezes passa despercebido: o sol, a chuva, as estrelas, a presença de quem amo e a possibilidade de estar aqui.


Hoje foi apenas um dia comum.


E talvez não exista nada mais extraordinário do que isso.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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