“Quando escolhemos um presidente, o que mais estamos escolhendo?”, por Neusa Freitas

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Daqui a poucos dias, milhões de brasileiros vão digitar dois números na urna e escolher quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos. Talvez nenhum outro cargo provoque uma relação tão pessoal com o eleitor. Gostamos ou não gostamos do candidato. Confiamos ou desconfiamos. Acompanhamos sua história, suas posições, seu discurso, seu jeito de falar.

No meio de uma campanha tão centrada em pessoas, às vezes é fácil esquecer que a Presidência da República é muito maior do que a pessoa que ocupa aquela cadeira. Quando elegemos um presidente, escolhemos também quem vai formar um governo, definir ministérios e prioridades, conduzir a administração federal, enviar propostas ao Congresso e participar das decisões sobre onde e como o dinheiro público será utilizado. E algumas escolhas feitas por um presidente podem continuar produzindo efeitos quando ele já não estiver mais no Palácio do Planalto.

Um ministro do Supremo Tribunal Federal é um bom exemplo. Quando surge uma vaga no STF, cabe ao presidente indicar um nome. A escolha precisa ser aprovada pelo Senado, mas a indicação parte de quem ocupa a Presidência. Depois de nomeado, esse ministro pode permanecer no Supremo por muitos anos. Também cabe ao presidente indicar, com aprovação do Senado, o procurador-geral da República, o presidente e os diretores do Banco Central, além de outras autoridades previstas na Constituição e na legislação. São decisões que podem atravessar governos.

Também estamos escolhendo quem representará o Brasil diante do mundo. O presidente conduz as relações com outros países, participa da condução da política externa brasileira e exerce o comando supremo das Forças Armadas. É muita responsabilidade concentrada em um único cargo. Mas o presidente não governa sozinho. Existe Congresso Nacional. Existe Judiciário. Existem estados e municípios. Existem órgãos de controle, leis, orçamento e uma Constituição que estabelece competências e limites.

Parece óbvio. Durante uma campanha, nem sempre parece. É comum ouvir propostas para praticamente todos os problemas do país: emprego, saúde, educação, segurança, impostos, moradia, meio ambiente, infraestrutura. Prometer é fácil. Executar é outra história. Uma proposta custa quanto? De onde virá o dinheiro? Depende exclusivamente do presidente? Precisa passar pelo Congresso? É responsabilidade da União ou também depende dos estados e municípios? Essas perguntas ajudam a tirar uma proposta do discurso e colocá-la diante da realidade.

O presidente exerce a direção da administração federal, nomeia ministros, participa do processo legislativo, sanciona ou veta projetos e dispõe de instrumentos importantes para executar as políticas do governo. Por isso, numa eleição presidencial, vale olhar além da quantidade de promessas e tentar entender o projeto de país que existe por trás delas. Quais são as prioridades? Como serão financiadas? O que depende de mudança na legislação? O que precisa passar pelo Congresso? O que realmente estará nas mãos do governo federal?

E há também a trajetória de quem pretende comandar tudo isso. Quando falo em currículo, como já fiz nas últimas semanas, não estou falando apenas de diploma. Estou falando de experiência profissional, política e administrativa, das posições assumidas ao longo da vida pública e do conhecimento sobre as instituições com as quais terá de governar. Porque ocupar a Presidência não é apenas fazer discursos, participar de cerimônias ou representar uma corrente política. É assumir a direção da administração federal de um país inteiro.

E talvez exista aí uma responsabilidade que mereça ser lembrada especialmente depois de uma campanha eleitoral tão marcada por diferenças, disputas e lados. A eleição termina. A Presidência, não. Quem vence recebe nas urnas o direito de governar, mas assume a responsabilidade de exercer o cargo para o país inteiro.

O governo federal administra políticas, recursos e serviços públicos que também atendem a quem fez outra escolha eleitoral, a quem votou em branco, anulou o voto ou sequer pôde votar. Depois da eleição, não existem brasileiros que mereçam mais ou menos governo de acordo com o voto que deram. Existem brasileiros. E isso dá outra dimensão à escolha de um presidente.

Quem vencer a eleição deste ano terá mandato de quatro anos e tomará posse em 5 de janeiro de 2027. Nas últimas semanas, percorremos aqui os cargos na mesma ordem em que aparecerão na urna. Falamos de deputado federal, deputado estadual, senador e governador. Agora chegamos ao presidente.

Talvez seja o cargo sobre o qual mais ouvimos falar durante uma eleição e, justamente por isso, um dos que mais exigem que consigamos separar a pessoa, a campanha e aquilo que efetivamente significa governar. Um presidente terá suas convicções, seu projeto político e as propostas que o levaram à eleição. Isso faz parte da democracia. Mas, depois de eleito, a responsabilidade do cargo alcança quem concorda e quem discorda, quem comemorou o resultado e quem preferia outro caminho.

A eleição escolhe um presidente. A partir da posse, ele passa a governar um país inteiro.
E esse país somos todos nós.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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