Dia Nacional do Livro: sebo de Mogi das Cruzes aposta em trocas e atividades culturais para enfrentar desafios do mercado

PUBLICIDADE

O que começou com pequenas feiras de livros em garagens emprestadas se transformou em um espaço que reúne literatura, arte e leitores em Mogi das Cruzes. Criado em 2020 por Sergio Sbeghen, de 25 anos, o Sebo de Vela encontrou nas trocas de exemplares, nas vendas pela internet e nas atividades culturais maneiras de enfrentar a concorrência e manter o negócio.
A trajetória do estabelecimento ganha destaque nesta quinta-feira (29), Dia Nacional do Livro, e mostra como os sebos buscam se adaptar às mudanças no mercado.

Nascido e criado em Mogi das Cruzes, Sergio cresceu em uma família ligada à cultura e às artes. Estudou cinema, audiovisual e produção cultural, áreas pelas quais mantém interesse até hoje. Foi em 2020 que decidiu criar o próprio sebo, inicialmente sem uma loja física. Para vender os livros, utilizava garagens cedidas por conhecidos e organizava feiras em diferentes locais.
A mudança veio em 2023, quando o Sebo de Vela ganhou um endereço fixo na região central de Mogi das Cruzes. Aos poucos, o espaço deixou de funcionar apenas como ponto de venda de livros usados e passou a receber atividades culturais, como lançamentos literários e eventos ligados ao cinema e à música. Hoje, também comercializa exemplares para clientes de outras partes do Brasil. Sergio trabalha no estabelecimento ao lado de Andrew Miranda, que participa da curadoria do acervo.

Em entrevista ao portal Hoje Diário, Sergio contou que até o nome do estabelecimento surgiu de uma curiosidade histórica sobre os livros usados.
“Existe a hipótese de que o termo ‘sebo’, usado para um local que vende livros usados, tenha surgido porque as velas de antigamente, feitas de gordura animal, ‘ensebavam’ as mãos do leitor enquanto ele as usava para enxergar o livro em ambientes fechados”, explicou.

Segundo essa hipótese, as marcas deixadas nas páginas ajudariam a diferenciar um livro novo de outro que já havia sido utilizado. A história inspirou o nome Sebo de Vela. A origem do termo, porém, é cercada de diferentes explicações. Conforme informações apresentadas em publicações sobre o assunto, a palavra “sebo” teria se popularizado no Brasil para identificar estabelecimentos de livros usados em meados do século XX, especialmente entre as décadas de 1950 e 1960. Antes disso, essas lojas eram conhecidas como alfarrabistas.
Na rotina do Sebo de Vela, boa parte dos livros que chegam às estantes vem dos próprios clientes. Quem tem exemplares em casa e deseja trocá-los pode levá-los ao estabelecimento para uma avaliação. Nesse processo, são considerados o estado de conservação, o valor de mercado e a procura por cada título. Depois da análise, os clientes recebem créditos que podem ser utilizados na escolha de outras obras.

A troca permite que um livro já lido encontre um novo dono, enquanto quem o levou ao sebo recebe créditos para escolher outros exemplares. Para Sergio, essa prática ajuda a facilitar o acesso à leitura e mantém os livros em circulação.
Mas trabalhar com livros usados também envolve dificuldades. O proprietário conta que a concorrência e as margens de lucro reduzidas estão entre os principais desafios. “O maior desafio é manter o espaço com um mercado cada vez mais competitivo e margens apertadas para venda de livros usados”, afirmou.

Para lidar com essa realidade, o Sebo de Vela passou a investir nas vendas online, seguindo uma tendência já presente no grande varejo. Ao mesmo tempo, Sergio decidiu explorar outras possibilidades para a loja física, abrindo espaço para diferentes expressões artísticas. A ideia é que o público tenha motivos para frequentar o local mesmo quando não está procurando um livro específico. Lançamentos de obras, atividades musicais e produções ligadas ao cinema passaram a fazer parte da programação do sebo.
O interesse dos leitores também ajuda a definir o que aparece nas estantes. Atualmente, os livros de fantasia e romance representam a maior parte das vendas. No último ano, porém, Sergio percebeu uma procura significativa por títulos de filosofia, que passaram a atrair outro perfil de público.

As redes sociais se tornaram outro caminho para aproximar o estabelecimento dos leitores. No Instagram, o perfil @sebodevela reúne mais de 77 mil seguidores, conforme o número informado em outubro de 2026. Por meio de conteúdos sobre literatura e escrita criativa, o Sebo de Vela construiu uma comunidade que fortalece o contato com leitores e autores da região.
Segundo Sergio, essa relação tem contribuído para ampliar o contato com escritores locais e criar oportunidades de troca de conhecimento entre os participantes. O espaço também recebe lançamentos literários, permitindo que autores apresentem seus trabalhos ao público.

Entre as pessoas que acompanham essa trajetória está Ester Jungers, de 20 anos, amiga de Sergio e frequentadora do estabelecimento. Ela conheceu o Sebo de Vela pouco antes da inauguração da loja física e, desde então, passou a frequentar o espaço e a colaborar ocasionalmente com a realização de eventos.
Em entrevista ao portal Hoje Diário, Ester contou que a relação com o sebo começou pelo interesse pela literatura, mas acabou se tornando algo muito maior. Ao longo dos anos, ela acompanhou iniciativas de Sergio, inclusive a participação do estabelecimento em encontros medievais e a expansão da presença nas redes sociais. “Com o tempo, o sebo deixou de ser apenas um lugar que eu gostava de visitar e se tornou um espaço de acolhimento, onde encontrei conforto, construí amizades e pude simplesmente ser quem sou”.
Para Ester, a importância do estabelecimento vai além dos livros disponíveis nas estantes. “Se eu pudesse resumir tudo o que esse lugar representa para mim em uma única palavra, seria: pertencimento”.

Nem todos os livros que passam pelo estabelecimento, entretanto, são destinados à venda. Nos últimos três anos, cerca de 3 mil exemplares foram doados pelo Sebo de Vela, de acordo com o proprietário. As distribuições ocorreram em instituições de caridade e também em terminais de ônibus e trem, como forma de incentivar a leitura.
Para Sergio, os sebos cumprem ainda outra função: guardar obras que muitas vezes já não são encontradas nas livrarias. Publicações antigas, títulos fora de circulação e trabalhos de autores menos conhecidos podem continuar disponíveis nesses estabelecimentos, mesmo depois de desaparecerem do comércio.
“Acredito que os sebos sejam uma forma de preservação de memória indispensável. Neles é possível encontrar obras que já estão fora de circulação, ou que nunca foram publicadas em grandes veículos, e por isso são de grande valor de pesquisa”, destacou.

Na avaliação dele, esses espaços permitem descobrir livros que dificilmente chegariam ao público pelos canais mais populares do mercado editorial. A ausência dos sebos, acredita, poderia limitar o contato dos leitores com obras menos conhecidas.

O futuro do Sebo de Vela também deve envolver projetos que vão além da literatura. Sergio pretende ampliar a produção de trabalhos autorais em diferentes áreas, incluindo cinema e teatro.
Um dos projetos já previstos é Os Caminhos de João e Maria, releitura autoral escrita para os palcos que reúne diferentes formas de arte. A estreia está marcada para 13 de dezembro de 2026, em Mogi das Cruzes. Os ingressos estarão disponíveis em breve.

Mesmo com a presença cada vez maior das vendas pela internet, Sergio acredita que visitar um sebo oferece uma experiência que não se resume à compra de um livro. Para ele, percorrer as estantes sem saber exatamente o que vai encontrar também faz parte do interesse por esses espaços.
“Entrar em um sebo pela primeira vez é descobrir que a experiência da leitura começa muito antes de abrir um livro. Garimpar as estantes de livros e descobrir um livro assinado pelo último leitor (talvez décadas atrás) é uma experiência única, que lembra que viver a vida real também proporciona alguns momentos mágicos e culturais. Esse é um caminho sem volta que vale a pena ser trilhado”, finalizou.

O Sebo de Vela fica na rua Otto Unger, número 65, na região central de Mogi das Cruzes. Quem deseja apoiar o estabelecimento também pode realizar compras por meio de seu link de indicação da Amazon https://www.amazon.com.br/?linkCode=sl2&tag=sebodevela-20&linkId=b6ffc4ae5b3755363ade5f735c3492e4&language=pt_BR&ref_=as_li_ss_tl. Para mais informações, acesse a página no Instagram @sebodevela.

Sergio Sbeghen
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

 

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE