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“Todo dia é dia de luta para nós”: conheça indígena Kaimbé que luta para manter a cultura em Itaquaquecetuba

O Dia nacional da Luta dos Povos Indígenas, celebrado neste sábado (07), é uma data que reforça a resistência, a memória e a presença viva dos povos originários no Brasil.
Para o povo Kaimbé, originário do sertão baiano, essa luta não se restringe a uma data no calendário, mas se manifesta diariamente, especialmente nos contextos urbanos, onde o direito à identidade, ao território e à cultura ainda enfrenta muitos obstáculos.

O portal Hoje Diário conversou com Antônio Carlos Damasceno, conhecido como Antônio Kaimbé, de 44 anos, artesão, palestrante e indígena do povo Kaimbé. Ele vive em Itaquaquecetuba ao lado de sua esposa, Silvia Paula Ribeiro, também conhecida como Silvia Kaimbé, de 48 anos, com quem compartilha a vivência em contexto urbano.

Segundo Antônio, essa é uma experiência atravessada por contrastes. “Viver no contexto urbano tem seus pontos positivos e negativos. Viemos para a cidade por conta do trabalho, mas, até hoje, não me acostumei totalmente com os costumes urbanos. Na aldeia, tudo é coletivo: a gente trabalha junto, come junto, vive junto. As pessoas se conhecem, se ajudam, compartilham. Na cidade, a lógica é outra, é muito individual. Mesmo assim, a gente procura viver a nossa cultura e passar adiante nossos costumes. É uma experiência que às vezes é boa, mas muitas vezes também é marcada pelo preconceito”, disse.

O casal está junto há cerca de 26 anos e se conheceu na aldeia, na Bahia, quando Silvia foi visitar familiares. Desde então, construíram uma trajetória marcada pela resistência cultural, pela família e pela luta coletiva. São pais de dois filhos: uma menina autista de 10 anos e um filho de 25 anos, que hoje também carrega e pratica os ensinamentos do povo Kaimbé.

Em Itaquaquecetuba, o maior desafio enfrentado pela família Kaimbé é a falta de espaço e de políticas públicas específicas para a vivência cultural indígena. “O maior desafio que enfrentamos hoje, vivendo em Itaquaquecetuba, é a falta de espaço para viver a nossa cultura. Eu entendo que não existem políticas públicas específicas para nós, como povo indígena. Tudo é muito difícil. Fazemos palestras em escolas, mas, por incrível que pareça, na cidade onde moramos, a abertura é mínima. O acesso às escolas para falar da nossa cultura é muito pequeno. Itaquaquecetuba ainda não está preparada para essa realidade, muitas vezes nos sentimos excluídos”, relatou.

Mesmo diante dessas dificuldades, práticas culturais fundamentais seguem vivas no cotidiano da família. O artesanato tradicional, o canto, a dança, as pinturas e os grafismos do povo Kaimbé, além das palestras em escolas e eventos, são formas de manter a identidade fortalecida. Antônio explica que essas atividades não apenas garantem parte da renda familiar, mas também mantêm o vínculo espiritual e cultural com o território de origem. “A gente respira, come e vive a nossa cultura. Isso faz com que a aldeia nunca saia da gente”, afirmou.

Na visão de Antônio, a sociedade urbana poderia apoiar melhor os povos indígenas ouvindo mais e julgando menos. Ele critica a visão estereotipada que associa a identidade indígena apenas à aparência física ou à ideia de que indígenas pertencem exclusivamente às florestas. “Viver a própria cultura no contexto urbano é difícil, porque aqui não existem os costumes de onde eu vim. Se a gente quiser sobreviver, precisa se submeter aos costumes da cidade. Esse desafio não acontece só em Itaquaquecetuba, mas em todo o contexto urbano. Além disso, sofremos muito com a visão estereotipada sobre os povos indígenas. As pessoas querem que a gente tenha uma ‘cara de índio’. No meu caso, por exemplo, eu tenho pele clara e olhos verdes, e isso gera questionamentos constantes sobre a minha identidade”, desabafou.

Entre os ensinamentos mais marcantes herdados dos mais velhos, Antônio destacou a importância do coletivo. “Nós caminhamos na contramão da sociedade. Pensamos diferente, nos comportamos de forma diferente e olhamos para a terra, para o meio ambiente, para as árvores e para a vida de um jeito diferente. Enquanto o sistema pensa no lucro, nós pensamos na preservação e no coletivo. Isso não acontece só aqui, mas em qualquer estado. Mesmo assim, a gente não vai parar. Enquanto estivermos vivos, vamos continuar lutando”, disse.

O Dia nacional da Luta dos Povos Indígenas, celebrado em 7 de fevereiro, tem um significado especial para Antônio e sua comunidade. Instituída pela Lei número 11.696/2008, a data homenageia Sepé Tiaraju, líder Guarani morto em 7 de fevereiro de 1756, durante conflitos ligados ao Tratado de Madrid. Para o povo Kaimbé, a data não é festiva, mas simbólica. “É um dia de luta, de reivindicação e de visibilidade. Mas, na verdade, todo dia é dia de luta para nós”, afirmou.

“Qualquer solo brasileiro é território indígena. Se eu estiver na Bahia, continuo sendo Kaimbé. Se estiver em São Paulo, em Minas ou em qualquer outro lugar, continuo sendo Kaimbé. A gente pode se tornar o que quiser ser, sem deixar de ser quem somos. Nosso desejo é estar presente em todos os espaços: escolas, saúde, cultura e governo. Queremos ensinar, dialogar e desconstruir muitas ideias erradas. Mas as portas ainda não se abrem com facilidade para nós”, finalizou Antônio.

Para Antônio Kaimbé, ocupar espaços de fala, como entrevistas, escolas e eventos culturais, é uma forma de garantir que a cultura indígena continue viva. “Se a gente não fala, se a gente não vive a nossa cultura, a gente morre. Estar nesses espaços nos fortalece”, concluiu.

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal
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