Outro dia descobri que estou completamente desatualizada. Não foi porque não sei configurar a televisão nem porque ainda procuro os óculos enquanto eles estão na minha cabeça. Foi pior. Descobri que os adolescentes agora passam o dia… farmando aura. Confesso que, na primeira vez que ouvi a expressão, achei que fosse alguma técnica de meditação oriental, dessas em que a pessoa alinha os chakras, conversa com o universo e sai iluminada. Nada disso…
“Farmar”, aprendi, vem dos videogames: repetir ações para acumular pontos. Já “aura” virou uma espécie de moeda invisível que mede o quanto alguém parece interessante, misterioso ou simplesmente o protagonista da própria série. É uma economia simbólica… expressão deixada por Pierre Bourdieu.
Você atravessa a rua de cabeça erguida, vento no cabelo, trilha sonora épica ao fundo… mais mil pontos de aura.
Você tropeça no meio-fio porque estava olhando o celular… menos quinhentos.
A mãe grita do portão:
— Leva o casaco!
Pronto. Falência moral. Perdeu toda a aura conquistada durante a semana.
Passei a observar os vídeos. É uma coleção de cenas em câmera lenta, olhares perdidos no infinito, gente caminhando como se estivesse entrando na final de um campeonato mundial de alguma coisa muito importante… quando, na verdade, só foi comprar pão. Até o jeito de beber água ganhou solenidade. Não é mais hidratação. É desenvolvimento de personagem.
Tem campeonato… vários parques em várias cidades…..
Mas, pensando bem, será que isso é tão novo assim?
Na minha adolescência também existia uma moeda invisível. Só tinha outro nome. Farmava aura quem conseguia gravar uma música da rádio sem o locutor interromper no refrão. Quem chegava à escola com um tênis recém-lançado. Quem sabia a letra inteira daquela música que ninguém mais conhecia. Quem fazia uma embaixadinha a mais na quadra ou andava de bicicleta sem colocar as mãos no guidão.
Antes disso, bastava ter uma Caloi reluzente. Ou um relógio digital que acendia uma luzinha azul. Em algum momento da história da humanidade, provavelmente um cidadão das cavernas ganhou respeito porque conseguiu fazer fogo sem pedir brasas emprestadas ao vizinho.
A verdade é que toda geração inventa sua própria forma de parecer extraordinária.
Mudam as palavras.
Mudam as roupas.
Mudam os aplicativos.
Mas continua existindo esse desejo quase infantil de arrancar dos outros um silencioso “uau”. A diferença é que, hoje, existe um placar imaginário funcionando vinte e quatro horas por dia. Cada gesto parece disputar curtidas invisíveis, mesmo quando ninguém está olhando. E talvez aí esteja a maior ironia…
Porque a verdadeira aura nunca precisou de câmera lenta.
Ela aparece naquele professor que entra na sala e conquista o silêncio sem levantar a voz…
Na avó que reúne três gerações em volta da mesa…
No músico de praça que toca para meia dúzia de pessoas como se estivesse no Carnegie Hall…
Na criança que divide o lanche sem calcular o retorno da gentileza…
Essas pessoas jamais diriam que estão farmando aura. Talvez justamente por isso tenham tanta.
No fim das contas, desconfio que existe uma regra secreta nessa contabilidade moderna: quem vive tentando provar que tem aura acaba gastando toda a energia tentando convencê-la de existir. Enquanto isso, a vida segue distribuindo pontos para quem nem sabia que havia um jogo acontecendo.
Chegar aos quase 69 anos tem uma vantagem imensa: a gente finalmente descobre que a aura mais bonita é aquela que o tempo deposita sobre nós sem fazer barulho.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




