Todos nós já ouvimos alguém dizer que “anticoncepcional dá câncer”. Por outro lado, também há quem afirme que ele protege contra a doença. Afinal, qual é a verdade?
Como quase tudo em medicina, a resposta depende do tipo de câncer, do tempo de uso e das características de cada mulher.
Os anticoncepcionais hormonais estão entre os medicamentos mais estudados da história. Hoje sabemos que eles podem aumentar discretamente o risco de alguns tipos de câncer, mas também reduzem de forma significativa o risco de outros. Por isso, a decisão de utilizá-los deve ser individualizada.
O uso atual ou recente de anticoncepcionais está associado a um pequeno aumento do risco de câncer de mama. É importante destacar que esse aumento é baixo em mulheres jovens, faixa etária em que esse tipo de câncer já é naturalmente pouco frequente. Além disso, o risco tende a diminuir após a interrupção do uso e retorna ao padrão da população geral ao longo dos anos.
Também existe um discreto aumento do risco de câncer do colo do útero em mulheres que utilizam anticoncepcionais por muitos anos. No entanto, o principal responsável por esse câncer continua sendo a infecção persistente pelo HPV. Por isso, vacinação e realização periódica do exame preventivo continuam sendo as medidas mais importantes.
Por outro lado, poucas pessoas sabem que os anticoncepcionais oferecem uma proteção importante contra alguns tumores. O risco de câncer de ovário diminui cerca de 30% a 50%, e essa proteção pode permanecer por décadas após a suspensão do medicamento. O mesmo ocorre com o câncer de endométrio, cuja redução de risco também é expressiva e duradoura.
Há ainda evidências de redução do risco de câncer colorretal, embora esse benefício seja mais discreto.
Portanto, afirmar que “anticoncepcional causa câncer” é uma simplificação que não corresponde ao conhecimento científico atual. Da mesma forma, dizer que ele apenas protege também seria incorreto.
Na prática, para a maioria das mulheres saudáveis, os benefícios do anticoncepcional — como planejamento familiar, controle menstrual, tratamento da endometriose, melhora da acne e redução de alguns cânceres ginecológicos — costumam superar os riscos. Já mulheres com mutações hereditárias, como BRCA, histórico pessoal de câncer de mama ou outras condições específicas devem discutir cuidadosamente a melhor opção com seu médico.
A medicina moderna não trabalha com mitos, mas com evidências. E as evidências mostram que o anticoncepcional não é um “vilão” nem um “protetor absoluto”. É um medicamento que possui benefícios e riscos, como qualquer outro tratamento.
A informação correta continua sendo a melhor forma de prevenção. Antes de interromper ou iniciar qualquer método contraceptivo, converse com seu ginecologista ou médico de confiança. Uma decisão individualizada é sempre mais segura do que seguir informações incompletas encontradas nas redes sociais.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).


