O avanço do saneamento básico em São Paulo passa por um período de transformações, impulsionado pelo alinhamento entre investimentos de grande escala e planejamento de longo prazo. O programa UniversalizaSP, ao projetar a mobilização de cerca de R$ 100 bilhões até 2060 para o cumprimento das metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento, define as bases para expandir e consolidar a infraestrutura hídrica do Estado. Esse cenário de aportes planejados visa garantir que o setor cresça de forma sustentável. No entanto, o sucesso dessa estratégia será medido fundamentalmente pela capacidade de elevar a eficiência do sistema, especialmente em áreas onde o monitoramento técnico aponta disparidades.
O panorama atual da infraestrutura paulista já serve de base para esse planejamento e contribui diretamente para a posição de destaque do Estado no Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR). São Paulo ocupa a segunda posição no ranking nacional, com uma nota geral de 68,49 pontos — uma média que avalia a infraestrutura global do território. No pilar focado no componente Água, o índice confere ao Estado indicadores que demonstram robustez técnica, registrando as notas de 74,95 em qualidade da água e 71,19 em distribuição do recurso natural.
Esse desempenho técnico na esfera macro reflete-se na ponta final do atendimento aos municípios, conforme indicado pelos dados de cobertura do Instituto Trata Brasil. O mais recente Ranking do Saneamento posiciona nove cidades paulistas entre as 20 melhores do País, com Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos atingindo patamares de conformidade e pontuação máxima nacional. Essa liderança municipal é impulsionada por décadas de investimentos em Engenharia e qualificação profissional.
Para que esses avanços se traduzam em segurança hídrica efetiva para os diferentes perfis de consumo, é necessário enfrentar os desafios qualitativos apontados pelo Infra-BR. Diferentemente de outros indicadores tradicionais, o índice traz uma camada de análise ao focar na sustentabilidade das operações e na qualidade do serviço entregue à população. O diagnóstico expõe que a universalização não se completa apenas com a extensão física de tubulações, mas com a garantia de que o ciclo completo do saneamento seja concluído. O índice revela, por exemplo, a necessidade de equilibrar o atendimento de distribuição de água entre áreas rurais (66,01) e urbanas (39,60), além de apontar um gargalo na eficiência do tratamento do esgoto coletado, que registra 19,17 pontos sob a ótica de sustentabilidade do indicador.
No que se refere aos componentes de esgotamento sanitário e gestão de resíduos sólidos dentro do pilar de Saneamento Básico do Infra-BR, São Paulo registra uma nota setorial de 60,29 pontos, o que posiciona o Estado na sétima colocação do ranking nacional desse segmento específico. Esse resultado é condicionado por indicadores como a cobertura de tratamento do esgoto coletado, demandando o avanço das etapas de depuração final. Complementarmente, na gestão de resíduos, o índice afere a taxa de recuperação de materiais recicláveis do Estado, indicando a necessidade de convergência técnica entre os sistemas de tratamento para elevar a eficiência operacional da categoria.
Nesse contexto, o trabalho da Engenharia deve se voltar para o combate às perdas hídricas na rede de distribuição, caracterizadas como desperdícios invisíveis. Em redes antigas, compostas por materiais envelhecidos, volumes de água tratada perdem-se no subsolo sem emergirem à superfície. Superar esse cenário exige a aplicação de tecnologias de campo de precisão, como correlacionadores de ruídos, geofones eletrônicos e sondas de condutividade capazes de detectar falhas milimétricas. Municípios que incorporam esse arsenal tecnológico conseguem reduzir os índices de perdas de patamares de 40% para níveis inferiores a 25%, assegurando a sustentabilidade das operações e preservando o recurso hídrico diante das oscilações da crise climática.
A busca por essa eficiência conecta-se à resiliência operacional do abastecimento e à fronteira da economia circular. Integrar a gestão de esgoto à de resíduos sólidos é uma necessidade técnica e econômica que impacta diretamente a taxa de recuperação de materiais do Estado. O reaproveitamento do lodo de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) para a produção de biossólidos agrícolas e a geração de biogás para autossuficiência energética representam uma otimização dos recursos públicos e contribuem para a sustentabilidade ambiental.
Por fim, a viabilidade de uma infraestrutura desse porte e a correta aplicação dos investimentos previstos para as próximas décadas dependem do protagonismo da Engenharia e do compromisso com o rigor técnico. Diante do aporte anunciado pelo UniversalizaSP, torna-se fundamental a atuação de profissionais legalmente habilitados e amparados pela Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), instituída pela Lei nº 6.496/1977. Esse mecanismo não apenas formaliza a autoria e os limites de atuação de cada atividade, mas também funciona como garantia de que as atividades profissionais estejam sob a responsabilidade de profissionais devidamente habilitados.
Nesse cenário, o papel da governança técnica e da fiscalização do exercício profissional do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) assume caráter essencialmente estratégico e preventivo. É por meio dessa atuação que a autarquia contribui para que os investimentos em saneamento em São Paulo se traduzam em eficiência operacional e responsabilidade técnica, em prol das boas práticas de Engenharia, Agronomia e Geociências.
Marcellie Giratola é engenheira sanitarista e ambiental e atua como diretora de valorização profissional do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP).
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




