Nos últimos anos, a ivermectina passou a aparecer com frequência nas redes sociais como uma possível alternativa para o tratamento do câncer. Mas afinal, existe fundamento científico para isso?
A resposta exige cuidado: existem pesquisas interessantes, mas até o momento não há evidência clínica suficiente para considerar a ivermectina um tratamento comprovado contra o câncer.
A ivermectina é um medicamento antiparasitário utilizado há décadas. Entretanto, pesquisadores descobriram que, em experimentos realizados em células tumorais e modelos animais, ela pode interferir em diferentes mecanismos relacionados ao crescimento do câncer.
Estudos laboratoriais demonstraram efeitos sobre vias celulares como Wnt/β-catenina, PI3K/Akt/mTOR e STAT3, além de indução de apoptose — a chamada morte celular programada — e redução da proliferação de determinadas células tumorais. Esses achados despertaram interesse na possibilidade de reposicionar um medicamento antigo para uma nova finalidade. (PubMed)
O problema é que existe uma distância enorme entre matar uma célula tumoral no laboratório e tratar efetivamente um paciente com câncer.
Diversas substâncias apresentam atividade antitumoral em culturas celulares ou animais e depois não demonstram benefício suficiente quando testadas em seres humanos. É justamente por isso que novos tratamentos precisam passar por estudos clínicos capazes de determinar a dose adequada, segurança e, principalmente, se realmente aumentam resposta tumoral, sobrevida ou qualidade de vida.
No caso da ivermectina, essa etapa ainda é insuficiente. Revisões recentes da literatura continuam apontando ausência de grandes estudos clínicos randomizados que demonstrem benefício no tratamento do câncer. (PubMed)
Em 2026 foi publicado inclusive um estudo observacional envolvendo pacientes que utilizaram ivermectina associada ao mebendazol. Apesar de resultados relatados pelos próprios pacientes terem despertado interesse, o trabalho apresenta limitações importantes: não era randomizado, muitos pacientes recebiam simultaneamente tratamentos convencionais e os resultados foram autorreferidos. Além disso, a própria publicação recebeu posteriormente uma “Expression of Concern”, reforçando que seus resultados não devem ser interpretados como comprovação de eficácia. (PubMed)
Isso significa que devemos abandonar as pesquisas com ivermectina? Não.
O reposicionamento de medicamentos é uma área legítima e importante da ciência. Se uma substância barata e conhecida demonstrar atividade antitumoral consistente, ela merece ser investigada adequadamente. Mas investigação científica é diferente de recomendação terapêutica.
Hoje, substituir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia ou terapias-alvo indicadas para determinado tumor pela ivermectina pode significar perder um período precioso em que a doença poderia estar sendo tratada com terapias de benefício comprovado.
A ciência deve permanecer aberta a novas possibilidades, mas também precisa saber separar uma hipótese promissora de um tratamento comprovado. No momento, a ivermectina pertence à primeira categoria.
Na oncologia, esperança é fundamental. Mas esperança precisa caminhar ao lado da evidência científica.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




