“Ivermectina trata o câncer? O que a ciência realmente mostra”, por Doutor Jorge Abissamra Filho

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Nos últimos anos, a ivermectina passou a aparecer com frequência nas redes sociais como uma possível alternativa para o tratamento do câncer. Mas afinal, existe fundamento científico para isso?
A resposta exige cuidado: existem pesquisas interessantes, mas até o momento não há evidência clínica suficiente para considerar a ivermectina um tratamento comprovado contra o câncer.

A ivermectina é um medicamento antiparasitário utilizado há décadas. Entretanto, pesquisadores descobriram que, em experimentos realizados em células tumorais e modelos animais, ela pode interferir em diferentes mecanismos relacionados ao crescimento do câncer.

Estudos laboratoriais demonstraram efeitos sobre vias celulares como Wnt/β-catenina, PI3K/Akt/mTOR e STAT3, além de indução de apoptose — a chamada morte celular programada — e redução da proliferação de determinadas células tumorais. Esses achados despertaram interesse na possibilidade de reposicionar um medicamento antigo para uma nova finalidade. (PubMed⁠)

O problema é que existe uma distância enorme entre matar uma célula tumoral no laboratório e tratar efetivamente um paciente com câncer.

Diversas substâncias apresentam atividade antitumoral em culturas celulares ou animais e depois não demonstram benefício suficiente quando testadas em seres humanos. É justamente por isso que novos tratamentos precisam passar por estudos clínicos capazes de determinar a dose adequada, segurança e, principalmente, se realmente aumentam resposta tumoral, sobrevida ou qualidade de vida.

No caso da ivermectina, essa etapa ainda é insuficiente. Revisões recentes da literatura continuam apontando ausência de grandes estudos clínicos randomizados que demonstrem benefício no tratamento do câncer. (PubMed⁠)

Em 2026 foi publicado inclusive um estudo observacional envolvendo pacientes que utilizaram ivermectina associada ao mebendazol. Apesar de resultados relatados pelos próprios pacientes terem despertado interesse, o trabalho apresenta limitações importantes: não era randomizado, muitos pacientes recebiam simultaneamente tratamentos convencionais e os resultados foram autorreferidos. Além disso, a própria publicação recebeu posteriormente uma “Expression of Concern”, reforçando que seus resultados não devem ser interpretados como comprovação de eficácia. (PubMed⁠)

Isso significa que devemos abandonar as pesquisas com ivermectina? Não.

O reposicionamento de medicamentos é uma área legítima e importante da ciência. Se uma substância barata e conhecida demonstrar atividade antitumoral consistente, ela merece ser investigada adequadamente. Mas investigação científica é diferente de recomendação terapêutica.

Hoje, substituir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia ou terapias-alvo indicadas para determinado tumor pela ivermectina pode significar perder um período precioso em que a doença poderia estar sendo tratada com terapias de benefício comprovado.

A ciência deve permanecer aberta a novas possibilidades, mas também precisa saber separar uma hipótese promissora de um tratamento comprovado. No momento, a ivermectina pertence à primeira categoria.

Na oncologia, esperança é fundamental. Mas esperança precisa caminhar ao lado da evidência científica.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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