“Um gesto que todos nós deveríamos conhecer”, por Neusa Freitas

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Uma mulher apareceu na janela de uma casa na Vila Maria, zona norte de São Paulo, e levantou uma das mãos. Ela não gritou e também não disse aos policiais que precisava de ajuda. Abriu a palma, dobrou o polegar e fechou os outros dedos sobre ele.

Os policiais entenderam.

A mulher é marroquina, não fala português e, segundo as informações divulgadas pela Polícia Militar, estava em uma situação de violência doméstica. Naquele momento, sem conseguir se comunicar pelo nosso idioma, usou um gesto internacional de pedido de socorro.

Quando vi as imagens, fiquei pensando se eu saberia reconhecer aquele sinal imediatamente.

E acho que essa é uma pergunta que todos nós deveríamos nos fazer.

A ocorrência aconteceu na sexta-feira da semana passada. A polícia já havia sido acionada depois de pedidos de ajuda feitos pela filha de 13 anos do homem envolvido e por uma funcionária da ONU que trabalha com refugiados. Quando os policiais chegaram ao endereço, encontraram a mulher na janela. Foi quando ela fez o gesto.

É muito simples: a pessoa mostra a palma da mão, dobra o polegar para dentro e depois fecha os outros quatro dedos sobre ele.

Talvez você já tenha visto esse gesto circulando pelas redes sociais. Talvez saiba exatamente o que significa. Mas certamente muita gente ainda não sabe.

E deveria saber.

O chamado Signal for Help surgiu em 2020, durante a pandemia, quando o isolamento deixou muitas mulheres ainda mais vulneráveis dentro de casa. A proposta era justamente permitir que alguém pudesse sinalizar discretamente que precisava de ajuda, inclusive durante uma chamada de vídeo, sem necessariamente alertar quem estivesse por perto. O gesto acabou se tornando conhecido em diversos países. Em São Paulo, ele também integra as orientações do protocolo Não se Cale.

O que aconteceu com essa mulher mostra por que uma informação aparentemente tão pequena pode ser importante.

Ela estava em outro país, não dominava nosso idioma e precisava ser compreendida. Durante o atendimento, os policiais chegaram a utilizar ferramentas de tradução para conversar com ela. Depois, ela e o filho recém-nascido foram encaminhados para acolhimento, e houve solicitação de medidas protetivas.

Mas antes de qualquer tradução, alguém entendeu sua mão.

Isso me chamou muito a atenção.

Estamos acostumados a imaginar um pedido de socorro de uma maneira muito clara. Alguém liga para o 190, pede ajuda a um vizinho, procura uma delegacia ou conta o que está acontecendo para uma pessoa próxima.

Só que quem vive uma situação de violência nem sempre consegue fazer isso.

Às vezes o agressor está ao lado. Às vezes controla o telefone. Às vezes a mulher tem medo do que acontecerá se for descoberta tentando pedir ajuda. E há situações em que ela sequer consegue encontrar uma oportunidade para explicar o que está acontecendo.

Por isso conhecer esse gesto importa.

Mas existe outra parte dessa conversa que considero tão importante quanto ensinar mulheres a fazê-lo: nós precisamos aprender a reconhecê-lo.

Porque não adianta existir uma linguagem de socorro se ninguém entende o que está sendo dito.

E eu não estou falando apenas de policiais ou profissionais que lidam diretamente com mulheres vítimas de violência. Estou falando de mim, de você, dos nossos filhos, de quem trabalha em uma loja, em uma escola, em um restaurante, de quem atende o público.

Informação também protege.

Há alguns anos começamos a ver iniciativas para criar formas discretas de uma mulher pedir ajuda. O sinal feito com a mão é uma delas. Existem protocolos em estabelecimentos e campanhas de conscientização. Tudo isso é importante porque parte de uma realidade que não podemos ignorar: nem sempre uma mulher consegue dizer em voz alta que está em perigo.

Só precisamos tomar cuidado com uma coisa.

Reconhecer o gesto não significa agir de qualquer maneira.

Dependendo da situação, uma abordagem precipitada pode aumentar o risco para quem está pedindo ajuda. A orientação da própria organização responsável pela criação do sinal é procurar estabelecer contato de forma segura, quando isso for possível, para entender do que aquela pessoa precisa. Em situações de emergência, evidentemente, os serviços de segurança devem ser acionados.

Isso também precisa fazer parte da informação.

Não quero que ninguém termine esta coluna imaginando que agora precisa bancar o herói diante de uma situação de violência doméstica.

Quero algo muito mais simples.

Quero que você guarde esse gesto.

Palma da mão aberta. Polegar para dentro. Os outros dedos se fecham sobre ele.

Mostre para seus filhos. Converse sobre isso em casa. Se achar importante, compartilhe a informação com outras pessoas.

Não custa nada saber.

E talvez seja justamente por isso que essa história tenha ficado comigo. Em meio a tantas notícias de violência contra mulheres que recebemos quase diariamente, desta vez existe também alguma coisa concreta que podemos levar conosco depois de fechar a matéria.

Uma informação.

A mulher marroquina que apareceu naquela janela precisava que alguém entendesse o que ela não conseguia dizer.

Entenderam.

E, depois de conhecer a história dela, nós também sabemos.

Se um dia uma mulher levantar a mão diante de você, colocar o polegar sobre a palma e fechar os outros dedos por cima dele, preste atenção. Pode não ser apenas um gesto. Pode ser alguém pedindo ajuda.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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