“O problema não é o Bolsa Família, é o olhar sobre quem é pobre”, por Neusa Freitas

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Toda vez que alguém famoso fala sobre o Bolsa Família, acontece a mesma coisa.
A discussão deixa de ser sobre pobreza e passa a ser sobre quem é pobre.
Foi o que aconteceu após as declarações de Luciano Huck. Em poucos minutos, as redes sociais se encheram de opiniões. De um lado, quem concordava que o programa desestimula o trabalho. Do outro, quem defendia a importância do benefício.
Mas, em meio ao barulho, uma pergunta ficou esquecida: quem realmente conhece a vida de quem depende desse dinheiro para colocar comida na mesa?
É fácil falar sobre pobreza olhando para números. Difícil é olhar para as pessoas.

Quem mora em bairros periféricos sabe que a realidade está longe daquela imagem, repetida há anos, de que existe uma multidão acomodada vivendo de benefício social.
A verdade é que a maioria das famílias beneficiadas enfrenta uma rotina que poucos gostariam de viver. São mães que acordam antes do nascer do sol para deixar os filhos na escola e procurar trabalho. São pessoas que fazem bicos, vendem produtos, limpam casas, trabalham na informalidade e, mesmo assim, não conseguem garantir o básico.
Ninguém sonha em depender de auxílio do governo.
As pessoas sonham em depender do próprio salário.

Sonham em ter estabilidade, carteira assinada, poder fazer compras sem contar moedas e chegar ao fim do mês sem precisar escolher qual conta deixar para depois.
É claro que programas sociais precisam ser fiscalizados. É claro que podem ser aperfeiçoados. Dinheiro público exige responsabilidade.
Mas uma coisa é discutir melhorias. Outra é alimentar a ideia de que a pobreza existe porque falta esforço aos pobres.
Essa talvez seja uma das maiores injustiças que o Brasil repete há décadas.
Porque quem nasceu cercado de oportunidades costuma chamar de mérito aquilo que também recebeu como privilégio.

Enquanto isso, quem nasceu sem as mesmas condições precisa provar diariamente que merece respeito.
O Bolsa Família não resolve todos os problemas do país. Não gera desenvolvimento sozinho. Não substitui o emprego. Não elimina as desigualdades.
Mas impede que milhões de brasileiros afundem ainda mais nelas.
E talvez a discussão mais importante não seja se o programa deve existir.
Talvez seja entender por que tanta gente ainda se incomoda mais com quem recebe ajuda do que com as razões que tornam essa ajuda necessária.

Porque combater a pobreza exige muito mais do que opinião.
Exige disposição para enxergá-la como ela realmente é.
E não como alguns preferem imaginá-la.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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