Vivemos tempos curiosos. Conhecemos o patrimônio líquido dos milionários, mas desconhecemos o nome do nosso vizinho. Sabemos quantos milhões de seguidores possui um influenciador digital, mas ignoramos quem mora sozinho no final da nossa rua. Celebramos os best sellers sem jamais imaginar quantas histórias extraordinárias permanecem inéditas todos os dias.
Aprendemos a olhar para os centros. Talvez por isso tenhamos nos tornado tão míopes para as periferias. Mas não me refiro apenas às periferias geográficas. Existem periferias humanas espalhadas pelo mundo. Elas vivem silenciosamente em nossas cidades, em nossas casas e, muitas vezes, dentro de nós mesmos.
São as crianças que aprendem o mundo por caminhos diferentes daqueles que julgamos normais. São os idosos que caminham lentamente pelas calçadas enquanto carregam consigo oitenta ou noventa anos de memórias que jamais serão publicadas em um livro. São as comunidades que continuam cantando, dançando e celebrando tradições centenárias enquanto o mundo lhes pergunta apenas quanto elas produzem economicamente. São pessoas comuns que jamais monetizarão suas redes sociais porque estão demasiadamente ocupadas vivendo suas vidas.
São também aqueles que oram silenciosamente pelos seus. Os que repartem um pedaço de bolo numa festa qualquer. Os que cuidam de um animal abandonado. Os que acompanham durante anos a reabilitação de um filho sem jamais aparecerem em uma reportagem de televisão. Os que trabalham honestamente durante toda uma vida e descobrem, ao final dela, que sua maior riqueza jamais coube em uma conta bancária.
Há ainda uma periferia particularmente esquecida em nossos tempos: a do anonimato. Vivemos em uma sociedade que parece nos ensinar diariamente que precisamos ser vistos. Mas talvez algumas das existências mais luminosas do mundo jamais sejam conhecidas para além das suas pequenas comunidades afetivas.
Uma professora que transforma a vida de uma criança. Uma avó que ensina a receita do bolo da família. Um pai que segura a bicicleta do filho até que ele aprenda a pedalar. Uma mãe que aprende uma nova linguagem para compreender o silêncio do seu filho. Um voluntário que distribui cobertores em uma madrugada fria. Um músico desconhecido que continua cantando em uma pequena igreja do interior apenas porque a música ainda lhe faz sentido.
Nenhum deles aparecerá na capa das revistas desta semana. Talvez o verdadeiro poder seja muito mais simples e muito mais difícil de conquistar: o poder de permanecer sendo quem somos em um mundo que insiste em nos transformar em mercadorias, números, curtidas e estatísticas.
Enquanto assistimos aos poderosos disputarem seus lugares ao sol, milhares de pequenos sóis continuam nascendo todos os dias em lugares que dificilmente se tornarão notícia. Eles estão nas periferias do mundo e nas periferias dos nossos olhares.
Talvez a felicidade possua menos relação com aquilo que acumulamos do que com aquilo que preservamos ao longo do caminho. E talvez exista uma última verdade que mereça ser lembrada: nenhuma existência é periférica quando olhada a partir da dignidade humana.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).




