IA identifica infarto por obstrução coronariana em eletrocardiograma

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Uma ferramenta experimental de inteligência artificial (IA) foi desenvolvida para reconhecer infartos causados pelo bloqueio total de uma artéria do coração e indicar onde está a obstrução a partir de um eletrocardiograma (ECG). O sistema foi criado por pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, e da Universidade de São Paulo (USP), e teve resultados publicados na revista Nature Communications.
O modelo analisa dados digitais do ECG de 12 derivações, exame que registra a atividade elétrica do coração sob diferentes ângulos. Segundo os pesquisadores, é o primeiro validado em uma população brasileira com capacidade de identificar e localizar infartos por oclusão coronariana usando apenas esse exame.

A tecnologia foi treinada com 540.372 ECGs de 225.884 pacientes atendidos em serviços de emergência suecos entre 2005 e 2016. Do total, 534.510 exames eram de pessoas sem infarto; 1.583 correspondiam a casos de infarto por oclusão coronariana aguda, chamado de OMI na sigla em inglês; e 4.279, a infartos sem essa oclusão, classificados como non-OMI. Nos casos de infarto, os resultados do ECG foram comparados aos de angiografias coronarianas, exame que permite visualizar os vasos e identificar bloqueios.

A validação independente incluiu 401 pacientes atendidos no Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, entre 2017 e 2024. Desses, 236 não tinham OMI e 165 apresentavam a condição, confirmada por cateterismo cardíaco. Os autores também testaram o modelo com ECGs públicos da Europa e dados de um banco da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O desempenho variou conforme os sinais presentes no exame. Nos casos com alterações características conhecidas como supradesnivelamento do segmento ST (supra-ST), o sistema teve 96% de assertividade. Quando essas alterações não estavam evidentes, conseguiu identificar corretamente a oclusão em 82% das avaliações, segundo Marco Antonio Gutierrez, diretor do Serviço de Informática e do Laboratório de Informática Biomédica do InCor e coautor do estudo.

Esses casos sem sinais clássicos podem ser difíceis de reconhecer. O diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor e também autor do trabalho, José Eduardo Krieger, explicou que a avaliação médica pode exigir a combinação de sintomas, como dor no peito, exames de sangue para medir biomarcadores cardíacos, entre eles a troponina, e exames de imagem. A IA, segundo ele, pode apontar sinais discretos no traçado que não sejam percebidos na análise visual.

A ferramenta poderá auxiliar equipes de ambulâncias diante da decisão de administrar ou não um trombolítico, medicamento usado para desobstruir a artéria. O tratamento pode salvar vidas, mas também causar efeitos graves, como acidente vascular cerebral hemorrágico. Krieger afirmou que o sistema pode oferecer apoio à avaliação do risco e do benefício, sem substituir a análise clínica.
Os pesquisadores projetam que, no futuro, o algoritmo possa avaliar ECGs em tempo real e sinalizar rapidamente pacientes que precisam de cateterismo urgente. A equipe médica continuaria responsável pelo diagnóstico e pela escolha do tratamento, considerando o quadro do paciente e outros exames.

O InCor formou uma base de 30 mil eletrocardiogramas revisados por especialistas. Para Krieger, a parceria com a Universidade de Uppsala permitiu testar o desempenho do sistema em populações geneticamente distintas, incluindo a brasileira e a sueca. A próxima etapa será ampliar a validação no InCor e avaliar o algoritmo em condições reais de atendimento. A eventual adoção clínica ainda depende de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

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