Esses dias, vi uma Maria Fedida na janela da minha cozinha e fiquei pensando: há muitas injustiças na vida que ninguém se dispõe a corrigir. Uma delas é a maneira como damos nomes aos insetos. Não satisfeitos em invadir seus territórios, destruir seus jardins e pulverizar suas residências com inseticidas, ainda damos a eles nomes que fariam qualquer cidadão procurar imediatamente um advogado.
A Maria Fedida, por exemplo: essa pobre criatura nasce, cresce, alimenta-se, procura um companheiro, reproduz-se e tenta levar uma vida digna. Esse é o nome popular atribuído a diferentes espécies de percevejos, especialmente da família Pentatomidae, entre elas Nezara viridula, conhecida também como percevejo-verde. Um nome tão lindo, parece até o nome de cantora lírica famosa, mas aqui acabou sendo condenada por Maria Fedida.
Ela “ganhou” nome porque, quando ameaçada, libera substâncias odoríferas como mecanismo de defesa. Uma estratégia evolutiva perfeitamente compreensível. Nós, humanos, diante de uma ameaça, gritamos, choramos, discutimos, chamamos a polícia ou publicamos indignações nas redes sociais, mas a Maria Fedida simplesmente solta um cheiro desagradável. Convenhamos: é muito mais econômica.
Pois bem, mas há outros casos. Tem um coitado do piolho-de-cobra, que não é piolho nem cobra. Pertence à classe Diplopoda, formada por animais que possuem numerosos segmentos corporais e, geralmente, dois pares de pernas por segmento. Imagine carregar dezenas de pernas e ainda receber um nome que não corresponde a nenhuma de suas características zoológicas mais importantes.
E a tesourinha?
Representante da ordem Dermaptera, recebe esse nome porque possui duas estruturas semelhantes a pinças na extremidade do abdômen. Nunca cortou um tecido, jamais trabalhou numa alfaiataria e, até onde sabemos, não pretende abrir um salão de cabeleireiro. Entretanto, permanece condenada a ser chamada de tesourinha.
Já o bicho-pau, da ordem Phasmatodea, talvez seja o mais discreto dos seres vivos. Passou milhões de anos aperfeiçoando a arte da camuflagem, confundindo-se com galhos para escapar dos predadores. Quando finalmente alcançou uma extraordinária sofisticação evolutiva, recebeu dos humanos o nome de bicho-pau.
E o louva-a-deus? Os insetos da ordem Mantodea receberam um nome religioso porque mantêm as pernas anteriores numa posição que lembra mãos em oração. Parecem criaturas devotas, entregues à contemplação espiritual. Entretanto, são predadores eficientes e algumas espécies apresentam canibalismo sexual.
Enquanto uns rezam para não cair em tentação, o louva-a-deus pode terminar o encontro amoroso devorando o parceiro.
Eu nunca imaginei, que havia um inseto chamado: esperança, Ela vem de uma família de diversos insetos chamada Tettigoniidae. Verde, delicada, saltitante, ela entra em nossas casas carregando uma responsabilidade filosófica gigantesca: representar aquilo que a humanidade procura desde os tempos mais remotos.
— Olha! Uma esperança! Vu falar isso toda vez que a encontrar.
Enquanto isso, a barata, da ordem Blattodea, enfrenta um problema de reputação quase insolúvel. Basta aparecer para provocar gritos, saltos e demonstrações atléticas de pessoas que jamais frequentaram uma academia. Curiosamente, existem milhares de espécies de baratas, muitas vivendo longe das residências humanas e desempenhando funções ecológicas importantes.
Mas a humanidade não perdoa.
Uma barata pode passar a vida contribuindo para a decomposição da matéria orgânica. Se entrar na cozinha, entretanto, será tratada como uma criminosa internacional.
E o pobre vaga-lume? Pertencente à família Lampyridae, desenvolveu a extraordinária capacidade de produzir luz por meio de reações bioquímicas. A ciência chama esse fenômeno de bioluminescência. Nós o chamamos de vaga-lume, um lindo espetáculo da natureza que nós reduzimos a um nome que parece designar alguém passeando sem rumo com uma lanterna.
Talvez seja hora de revermos nossos julgamentos.
Da próxima vez que uma Maria Fedida aparecer na janela, não grite. Observe-a. Ela pertence a uma linhagem evolutiva muito anterior à nossa civilização, desenvolveu estratégias próprias de sobrevivência e não tem a menor intenção de participar de nossas discussões domésticas.
Se possível, abra a janela e permita que siga seu caminho.
Afinal, se há alguma coisa que a convivência com os insetos pode nos ensinar, é que o mundo não foi criado exclusivamente para nosso conforto.
E, antes de reclamar do cheiro da Maria, lembre-se de uma verdade inconveniente: Ela só fica fedida quando se sente ameaçada, já alguns seres humanos conseguem a mesma façanha sem que ninguém lhes faça absolutamente nada.
(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).



