“A violência contra a mulher também cabe na tela de um celular”, por Neusa Freitas

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Durante muito tempo, quando falávamos em violência contra a mulher, a imagem que vinha à cabeça era quase sempre a mesma: uma agressão física, geralmente dentro de casa.

Felizmente, essa compreensão mudou. Hoje sabemos que a violência pode começar muito antes de uma agressão e que existem muitas maneiras de controlar, perseguir, humilhar e causar medo.

O que talvez ainda não tenhamos aprendido completamente é que tudo isso também pode acontecer pela tela de um celular.

Nesta semana, o Ministério das Mulheres anunciou que os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência e do Racismo contra as Mulheres terão como tema “Conectadas, Seguras e Vivas”, com atenção especial à violência digital contra meninas e mulheres.

E os números ajudam a explicar por que esse assunto precisa ser discutido. Entre janeiro e maio deste ano, o Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências de violência no ambiente digital contra mulheres. No mesmo período de 2025, haviam sido 5.795. Um aumento de 188,6%.

É verdade que esse crescimento também pode estar relacionado ao fato de mais mulheres reconhecerem esse tipo de violência e denunciarem. Ainda assim, estamos falando de milhares de registros em apenas cinco meses.

E eu fiquei pensando no quanto algumas dessas situações ainda são tratadas como se fossem apenas um incômodo da vida nas redes sociais.

Não são.

Quem recebe uma ameaça pelo celular não deixa de ter medo quando fecha o aplicativo. Quem tem uma fotografia íntima divulgada sem autorização não recupera sua privacidade simplesmente apagando uma rede social. E quem está sendo perseguida por alguém que cria novos perfis toda vez que é bloqueado sabe muito bem que existe uma pessoa real por trás daquela tela.

Talvez a palavra “virtual” tenha contribuído durante muito tempo para diminuir a gravidade dessas situações.

Como se virtual fosse o contrário de real.

Não é.

A violência digital pode aparecer de várias formas. Está nas ameaças, na perseguição, na divulgação de imagens íntimas sem consentimento, na invasão de contas, na exposição de dados pessoais, nos perfis falsos criados para atacar alguém e também nos conteúdos manipulados por inteligência artificial.

Mas há situações muito mais próximas do nosso cotidiano que talvez nem sempre sejam reconhecidas dessa maneira.

A senha do celular exigida como prova de confiança. A localização que precisa permanecer ligada o tempo inteiro. A cobrança porque a mulher começou a seguir alguém. O questionamento sobre quem curtiu determinada fotografia. A exigência para mostrar conversas privadas. A criação de outro perfil depois de um bloqueio.

É nesse ponto que a conversa fica um pouco mais desconfortável, porque algumas dessas atitudes ainda são confundidas com ciúme, preocupação e até amor.

Não são.

Eu não consigo enxergar amor em uma relação na qual alguém precisa provar o tempo inteiro onde está, com quem está e com quem conversa.

E isso me preocupa ainda mais quando penso nos adolescentes.

Nossos filhos estão começando a se relacionar em uma época muito diferente daquela em que muitos de nós tivemos os primeiros namorados. Hoje existe localização em tempo real, mensagem a qualquer hora, acesso permanente às redes sociais e uma exposição da vida pessoal que nós simplesmente não tínhamos.

Para eles, compartilhar uma senha pode parecer uma demonstração de confiança. Mandar a localização pode parecer normal. Responder imediatamente pode virar uma obrigação.

Por isso essa conversa precisa começar cedo.

Precisamos ensinar nossas meninas que ter privacidade não significa esconder alguma coisa. E precisamos ensinar nossos meninos que namorar alguém não lhes dá o direito de fiscalizar a vida dessa pessoa.

Eu sei que parece óbvio.

Mas se fosse tão óbvio assim, talvez não estivéssemos vendo tantos casos de controle começarem justamente dessa maneira.

Também precisamos saber como agir quando essa violência acontece.

Guardar mensagens, prints, links, datas e informações dos perfis pode ser importante para comprovar o que aconteceu. O conteúdo pode ser denunciado à plataforma, e o Ligue 180 também recebe denúncias e orienta mulheres em situações de violência no ambiente digital. Havendo risco imediato, a orientação é acionar o 190.

Desde julho deste ano, estão em vigor novas diretrizes para a proteção das mulheres na internet. Entre as medidas está a retirada, em até duas horas após a notificação, de conteúdo íntimo divulgado sem autorização. As regras também alcançam situações como perseguição digital, ataques coordenados e conteúdos manipulados por inteligência artificial.

É um avanço importante, principalmente porque reconhece algo que já deveria estar claro para todos nós: o fato de uma violência acontecer pela internet não torna suas consequências menos graves.

Mas há outra questão que me incomoda bastante.

Quando uma mulher começa a ser perseguida ou atacada nas redes sociais, ainda é comum ouvir que seria melhor ela fechar o perfil, parar de publicar determinadas coisas ou simplesmente sair daquela rede.

Por que é sempre ela que precisa sair?

Essa pergunta vale para muita coisa quando falamos sobre violência contra mulheres.

É a mulher que muda o caminho para voltar para casa. É ela que troca o número do telefone. É ela que fecha o perfil. É ela que deixa de publicar. É ela que pensa duas vezes antes de dar uma opinião porque sabe que, dependendo do assunto, os ataques não serão apenas contra o que escreveu. Serão contra sua aparência, sua vida pessoal, sua inteligência e até sua sexualidade.

Aos poucos, a violência consegue exatamente aquilo que queria: diminuir o espaço daquela mulher.

E eu me recuso a achar que a resposta para isso seja ensinar mulheres a desaparecer.

A internet faz parte da nossa vida. É onde trabalhamos, estudamos, conversamos, nos informamos, encontramos pessoas e também exercemos o direito de dizer o que pensamos.

Nós também pertencemos a esse espaço.

Talvez a campanha anunciada nesta semana seja uma boa oportunidade para olharmos com mais atenção para comportamentos que durante muito tempo foram tratados como “coisas da internet”.

Porque não existe uma mulher virtual e outra mulher do lado de fora da tela.

É a mesma pessoa.

É ela quem sente medo quando recebe uma ameaça. É ela quem sofre quando sua intimidade é exposta. É ela quem olha para trás ao sair de casa quando percebe que alguém que a persegue pela internet sabe onde trabalha, onde mora ou os lugares que costuma frequentar.

A tela pode até separar quem pratica a violência de quem a recebe.

Mas nunca separou uma mulher das consequências dessa violência.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

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