Estudo da USP associa ondas de calor e poluição a maior risco de AVC em idosos

PUBLICIDADE

Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) associou a exposição prolongada a ondas de calor e à poluição do ar a uma maior probabilidade de acidente vascular cerebral (AVC) agudo entre pessoas com 65 anos ou mais na capital paulista. O efeito observado foi mais expressivo quando as altas temperaturas ocorreram junto a concentrações de partículas finas PM10.

Os pesquisadores definiram onda de calor como um período de pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas máximas de 33,1 °C ou mais. Na análise que considerou a interação entre calor e PM10, a razão de chances chegou a 1,404, o que corresponde a uma elevação de 40,4% por dia adicional de exposição à combinação, segundo os resultados do estudo.
Quando o modelo avaliou somente o efeito térmico, a razão de chances foi de 1,121. O PM10 é formado por partículas sólidas e líquidas microscópicas, associadas principalmente à queima de combustíveis de veículos e à poeira inalável.

A análise foi baseada em dados do Estudo de Mortalidade e Morbidade do Acidente Vascular Cerebral (EMMA), projeto da USP financiado pela Fapesp. A equipe examinou 769 pessoas diagnosticadas com AVC agudo: 54,2% eram mulheres e 65,5% tinham 65 anos ou mais. Um modelo estatístico comparou as condições meteorológicas e a qualidade do ar nos dias anteriores aos eventos neurológicos.

O EMMA reúne informações de mais de mil casos de AVC isquêmico registrados entre 2006 e 2018. Esse tipo de AVC ocorre quando uma artéria é obstruída e a circulação de sangue no cérebro é interrompida. Resultados preliminares da pesquisa foram apresentados por Alessandra Carvalho Goulart, professora da Faculdade de Medicina da USP, durante a FAPESP Week Países Baixos, realizada no campus da Universidade de Leiden até quinta-feira (29).
Goulart explicou que o calor intenso pode provocar desidratação e reduzir a parte líquida do sangue, tornando-o mais viscoso. Também pode afetar a regulação da temperatura corporal e o funcionamento cardiovascular. Segundo a pesquisadora, essas alterações interferem no fluxo e na pressão sanguínea e podem atuar como gatilho para um AVC.

Outro conjunto de análises investigou a relação entre hábitos de vida, saúde cardiovascular e doença de pequenos vasos cerebrais (DPVC), que envolve alterações nas pequenas artérias do cérebro e pode estar relacionada ao declínio cognitivo e à demência. No Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), os pesquisadores acompanharam 1.285 participantes em quatro etapas de exames realizadas entre 2008 e 2024. Do grupo, 61,2% eram mulheres na faixa dos 66 anos.

A equipe avaliou a saúde cardiovascular com o Life’s Essential 8, indicador da American Heart Association que reúne oito fatores: alimentação, atividade física, sono, tabagismo, índice de massa corporal, colesterol, glicemia e pressão arterial. A cada aumento de 10 pontos no escore, foi observada uma redução de 14% na chance de lesões graves nos pequenos vasos cerebrais.

Em uma amostra de 1.200 participantes do ELSA-Brasil, manter níveis moderados ou elevados de atividade física esteve associado a uma redução de 21% a 22% no risco de apresentar marcadores de DPVC. Entre eles estavam lacunas isquêmicas, micro-hemorragias e expansão dos espaços ao redor dos vasos sanguíneos cerebrais.

A análise também associou maior atividade física a uma redução de 21% a 30% no risco de atrofia do córtex entorrinal, estrutura do lobo temporal ligada à memória e à navegação espacial. Os níveis de atividade moderada a vigorosa foram medidos com sensores de actigrafia usados no pulso durante a terceira fase do estudo, entre 2017 e 2019. A partir de 2023, exames de ressonância magnética de alta resolução foram usados para avaliar o tecido cerebral.

Para separar a relação com a atividade física de outros fatores, os pesquisadores consideraram idade, sexo, raça, renda, escolaridade, tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal, hipertensão e diabetes. Goulart afirmou que os resultados do ELSA-Brasil apontam para o papel dos cuidados cardiovasculares e do exercício na proteção cerebral.

A pesquisadora também citou o crescimento da população idosa em São Paulo: o grupo aumentou mais de 50% entre 2010 e 2022 e já ultrapassa 2 milhões de pessoas. Na avaliação dela, os achados do EMMA e do ELSA-Brasil indicam a necessidade de combinar cuidados cardiovasculares individuais com medidas de adaptação climática nas cidades.

Em outra frente de pesquisa da USP, uma equipe liderada pelo professor Orestes Forlenza estuda há mais de duas décadas o potencial neuroprotetor do lítio no tratamento da doença de Alzheimer. Ensaios clínicos apoiados pela Fapesp acompanham pacientes em estágio pré-demencial, com comprometimento cognitivo leve. Segundo Forlenza, doses subterapêuticas da substância demonstraram potencial para atenuar e estabilizar perdas de memória e raciocínio.

O grupo também realizou estudos com camundongos geneticamente modificados para apresentar características da doença. Os resultados laboratoriais indicaram que o lítio em doses subterapêuticas pode reduzir processos associados ao acúmulo de placas tóxicas e à deterioração da estrutura interna dos neurônios. Nos animais, a equipe também observou melhora em parâmetros de ansiedade e depressão.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE