O professor Fábio Torres, de 44 anos, coordenador do cursinho popular Chico Mendes, está cobrando a reaplicação da primeira fase da Fuvest 2027 para estudantes que perderam o exame no último domingo (1º), após problemas na circulação dos trens da Linha 11-Coral da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). A ocorrência prejudicou o deslocamento de candidatos até a Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), local de aplicação do vestibular na região do Alto Tietê.
Entre os afetados está Yasmin Marques, de 17 anos, moradora de Poá e aluna do cursinho coordenado pelo professor, que chegou à universidade depois do fechamento dos portões.
Em entrevista ao portal Hoje Diário, Fábio afirmou que aproximadamente 40 estudantes teriam sido prejudicados pelo problema ferroviário. Professor de redação, mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP e docente das redes públicas municipal de São Paulo e estadual paulista, ele contou que decidiu denunciar a situação após ser procurado por Yasmin Marques, de 17 anos, que relatou as dificuldades enfrentadas para chegar ao vestibular.
A estudante, que cursa o terceiro ano do ensino médio, contou à reportagem que se prepara para ingressar no ensino superior desde 2024 e que, neste ano, passou a frequentar o polo de Suzano do cursinho popular Chico Mendes.
No domingo (1º), saiu de casa, em Poá, por volta das 11h40 e seguiu de mototáxi por aplicativo até a estação Calmon Viana, onde embarcaria em um trem com destino a Mogi das Cruzes. Segundo Yasmin, o trajeto ferroviário normalmente leva cerca de 20 minutos. Ela já havia feito o mesmo percurso em 18 de outubro, quando participou de outro vestibular, e acreditava que chegaria à UMC com antecedência. Ao chegar à estação, porém, encontrou o trem parado e passageiros reclamando da demora.
A candidata relatou que recebeu informações sobre um trem de carga que impedia a circulação na Linha 11-Coral, na região de Suzano. Sem previsão para a normalização do serviço, começou a procurar alternativas de transporte, mas os valores cobrados por aplicativos estavam acima do que poderia pagar. As corridas custavam aproximadamente R$ 45 de moto e R$ 50 de carro. Yasmin explicou que já havia desembolsado R$ 114 pela inscrição na Fuvest, mesmo tendo obtido desconto de 50% na taxa. Diante da dificuldade financeira, permaneceu por mais alguns minutos na estação, até que outras três candidatas perceberam seu desespero e sugeriram dividir uma corrida de carro por aplicativo. As quatro estudantes seguiram juntas para Mogi das Cruzes. Apesar da mudança de trajeto, o grupo chegou à UMC por volta das 13h01, quando os portões já estavam fechados.
Em entrevista ao portal Hoje Diário, Yasmin relatou que encontrou outros candidatos na entrada da universidade, também impedidos de realizar a prova. Segundo ela, havia estudantes tentando explicar aos responsáveis pela aplicação do vestibular que os atrasos tinham sido provocados pelos problemas ferroviários.
A candidata confirmou que aproximadamente 40 pessoas permaneceram em frente à instituição, mas acredita que o número total de prejudicados possa ser maior, já que alguns estudantes teriam deixado o local antes de sua chegada.
Yasmin também denunciou a conduta de funcionários que atuavam na aplicação do vestibular. Segundo seu relato, enquanto os candidatos pediam para entrar, alguns fiscais teriam rido da situação e feito gravações do grupo.
“Quando a gente gritava, os fiscais passavam, davam risada, gravavam a gente e davam risada de nós”, relatou a estudante.
Ela afirmou que os candidatos não receberam explicações dos funcionários presentes na entrada e que as tentativas de diálogo não tiveram resultado. A denúncia sobre a conduta dos fiscais ainda não foi confirmada pela Fuvest.
Para Yasmin, perder a oportunidade de fazer o exame foi especialmente difícil por causa do tempo dedicado à preparação e dos gastos envolvidos. A estudante contou que começou a chorar ainda na estação ferroviária e permaneceu abalada durante o trajeto até a universidade e depois de voltar para casa.
“Não é que eu fiz a prova e não fui aprovada, não passei para a segunda fase. É que me tiraram essa oportunidade de fazer a prova”, desabafou.
Após o ocorrido, a candidata publicou relatos nas redes sociais e procurou o professor Fábio Torres, que passou a cobrar providências da Fuvest. O professor também utilizou suas páginas para questionar a decisão de não reaplicar o vestibular aos estudantes afetados.
“A FUVEST precisa reaplicar a prova para quem é do Alto Tietê e perdeu por causa de um trem cargueiro que ficou parado em Suzano. Não podemos naturalizar mais esse absurdo das empresas de vestibulares. Educação não pode ser um privilégio!”, publicou.
Fábio argumentou que a situação prejudicou jovens que passaram meses ou anos estudando para conquistar uma vaga na universidade pública, incluindo participantes de cursinhos populares.
“Não podemos aceitar que problemas no transporte ferroviário interrompam esses sonhos e que a responsabilidade recaia sobre quem já enfrenta tantas desigualdades para acessar o ensino superior”, declarou em outra publicação.
Yasmin afirmou que também procurou diretamente a Fuvest por meio do canal de atendimento da instituição, solicitando uma solução para o caso. Segundo ela, a resposta recebida foi de que não haveria reaplicação da prova.
A estudante contou ainda que os candidatos prejudicados formaram um grupo para buscar apoio e tentar reverter a situação. Conforme seu relato, houve contatos com representantes políticos e assessorias parlamentares, incluindo as de Erika Hilton, Amanda Pascoal e Sofia Favro.
Ela também afirmou ter recebido retorno de Sâmia Bomfim e relatou que integrantes do grupo foram informados sobre encaminhamentos ao Ministério Público. Essas iniciativas foram mencionadas pela candidata e ainda dependem de confirmação junto aos respectivos gabinetes e ao órgão.
Mesmo diante da posição da Fuvest, Yasmin disse que os estudantes pretendem continuar cobrando uma solução. Para ela, a medida mais adequada seria permitir que os candidatos prejudicados realizassem a prova em outra data. Caso isso não aconteça, defende ao menos a devolução dos valores pagos pela inscrição.
“A reaplicação significa dar oportunidade para quem correu atrás, para quem pagou, para quem estudou, para quem dedicou tempo e dinheiro no seu futuro”, afirmou.
A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) informou que, entre 11h40 e 12h30, foi identificada uma falha em um aparelho de mudança de via (AMV) durante a passagem de um trem de carga nas proximidades da estação Suzano. A ocorrência exigiu a atuação de equipes de manutenção e provocou intervalos maiores entre os trens no trecho entre Calmon Viana e Jundiapeba.
O diretor-executivo da Fuvest, Gustavo Monaco, informou que candidatos chegaram entre cinco e seis minutos após o fechamento dos portões em Mogi das Cruzes. Segundo ele, as regras do vestibular não permitem a entrada de estudantes atrasados nem preveem a reaplicação da prova nessas circunstâncias.
A primeira fase da Fuvest 2027 reuniu 106.165 inscritos, dos quais 6.834 não compareceram, o equivalente a 6,4% do total. Segundo a instituição, foi o menor índice de abstenção já registrado na história do vestibular. Neste ano, os candidatos tiveram cinco horas para responder a 80 questões de múltipla escolha, dez a menos do que nas edições anteriores. A Universidade de São Paulo (USP) oferece 8.147 vagas para o ano letivo de 2027.




