“O passado sim, o presente não!” por Luci Bonini

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Há algo curioso acontecendo no nosso tempo, triste talvez…Tenho percebido nas redes sociais… de novo eu nas redes sociais… que muitas pessoas passam horas discutindo o passado. Muitas pessoas revisam frases antigas, julgam personagens históricos, reviram acontecimentos de décadas — às vezes séculos — atrás, como se houvesse ainda alguma possibilidade de reorganizar aquilo que já aconteceu. E enquanto isso, o presente segue diante de nós, vivo, urgente, gritando. Temos de entender o passado para não errarmos no presente, mas não querer mudar a tal ponto de confundir personagens, fatos….

Tenho a impressão de que desenvolvemos uma estranha obsessão coletiva por mudar o passado. Talvez porque o futuro nos escape das mãos. Talvez porque o amanhã nos assuste demais. Então voltamos os olhos para trás, para aquilo que já não pode reagir, já não exige coragem concreta, já não nos compromete verdadeiramente.

O passado tornou-se um território confortável de indignação. Enquanto discutimos símbolos, o mundo real continua adoecendo. Crianças ainda morrem de fome. Pessoas vivem sem saneamento básico. Doenças erradicadas em países ricos seguem matando em regiões pobres. As praias amanhecem cobertas de lixo. Os mares acumulam microplásticos. Rios recebem esgoto diariamente. Há cidades inteiras convivendo com desigualdades profundas que já parecem parte natural da paisagem.

E continuamos… uma escavação causa mais curiosidade do que uma criança dormindo na calçada.

O difícil de viver no presente é porque ele exige ação verdadeira. O presente cobra responsabilidade. Cobra participação. Cobra mudança de hábitos, enfrentamento político, escolhas difíceis, renúncias. Já o passado permite julgamentos seguros. Ele não responde, não resiste, não exige transformação concreta de quem o condena.

E então seguimos assim: especialistas em revisar memórias e extremamente frágeis diante das urgências do agora. Não se trata de defender ignorância histórica. O passado deve, sim, ser estudado, compreendido e debatido. Mas existe uma diferença entre aprender com a história e viver aprisionado numa tentativa interminável de reescrevê-la. Porque enquanto tentamos corrigir aquilo que ficou para trás, deixamos de cuidar daquilo que ainda pode ser salvo.

Talvez o maior problema da nossa época não seja esquecer o passado, mas sim de olhar e entender o presente.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal HojeDiario.com).

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