“Dormir mal pode aumentar o risco de câncer? Entenda o que a ciência já descobriu”, por Doutor Jorge Abissamra Filho

PUBLICIDADE

Dormir bem não é apenas uma questão de descanso. O sono é uma necessidade biológica fundamental para o funcionamento do organismo, tão importante quanto uma alimentação equilibrada e a prática regular de atividades físicas. Nos últimos anos, pesquisas científicas têm demonstrado que a qualidade do sono pode influenciar o metabolismo, o sistema imunológico e até mecanismos envolvidos no desenvolvimento de doenças, incluindo o câncer.

Mas será que dormir pouco realmente aumenta o risco de desenvolver um tumor?

A resposta exige cautela. Embora existam evidências de associação entre alterações do ritmo biológico e determinados tipos de câncer, ainda não podemos afirmar que poucas horas de sono, isoladamente, sejam responsáveis pelo surgimento da doença.

O que acontece com nosso organismo enquanto dormimos?

Durante o sono, o corpo realiza processos essenciais de recuperação e regulação. O cérebro organiza informações, o sistema imunológico ajusta suas respostas e diversos hormônios seguem ciclos naturais de produção.

Um dos principais protagonistas desse processo é a melatonina, hormônio produzido predominantemente durante a noite, especialmente na ausência de luz.

Além de regular o ciclo de sono e vigília, a melatonina apresenta propriedades antioxidantes e participa de mecanismos celulares que vêm sendo investigados por sua possível relação com a prevenção do câncer.

Entretanto, isso não significa que tomar suplementos de melatonina previna tumores. Até o momento, não existem evidências clínicas suficientes para recomendar sua suplementação com essa finalidade.

Trabalho noturno e câncer: existe uma relação?

Um dos aspectos mais estudados é a alteração crônica do relógio biológico, conhecida como desregulação do ritmo circadiano.

Pessoas que trabalham durante a madrugada, especialmente em escalas noturnas frequentes e por muitos anos, podem apresentar alterações persistentes nos ciclos hormonais, metabólicos e de sono.

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, classifica o trabalho noturno como provavelmente carcinogênico para humanos, no Grupo 2A.

Essa classificação indica a existência de evidências científicas relevantes, mas não significa que toda pessoa que trabalha à noite desenvolverá câncer.

Entre os tumores investigados nessa associação estão os de mama, próstata e intestino. Entretanto, os resultados dos estudos epidemiológicos não são uniformes, e ainda existem incertezas sobre a magnitude desses riscos.

Dormir pouco também prejudica a imunidade.

O sono desempenha um papel importante na regulação do sistema imunológico.

A privação crônica de sono pode modificar a atividade de células de defesa, favorecer alterações inflamatórias e prejudicar mecanismos envolvidos na manutenção da saúde.

Também existe uma relação entre sono insuficiente, obesidade, resistência à insulina e alterações metabólicas.

Esse ponto merece atenção porque a obesidade está associada ao aumento do risco de diversos tipos de câncer, incluindo tumores de mama após a menopausa, endométrio, fígado e intestino.

Portanto, embora a relação direta entre poucas horas de sono e câncer ainda não esteja completamente estabelecida, sabemos que dormir mal pode contribuir para condições que prejudicam a saúde a longo prazo.

E quem já está em tratamento contra o câncer?

Para pacientes oncológicos, a qualidade do sono merece atenção especial.

Insônia, ansiedade, dor, alterações hormonais e efeitos colaterais de medicamentos podem comprometer significativamente o descanso.

O sono inadequado pode intensificar a fadiga, prejudicar a concentração, aumentar a percepção de dor e reduzir a qualidade de vida durante o tratamento.

Por isso, investigar e tratar distúrbios do sono deve fazer parte do cuidado integral do paciente com câncer.

É importante destacar que melhorar o sono não substitui nenhum tratamento oncológico, mas pode contribuir para o bem-estar e para a capacidade de enfrentar as diferentes etapas da doença.

Quantas horas devemos dormir?

Para a maioria dos adultos, a recomendação é dormir entre sete e nove horas por noite.

Entretanto, a quantidade não é o único fator importante. A regularidade dos horários e a qualidade do sono também precisam ser consideradas.

Algumas atitudes podem ajudar:

  • Manter horários regulares para dormir e acordar.
  • Evitar cafeína nas horas que antecedem o sono.
  • Reduzir a exposição à luz intensa e às telas antes de dormir.
  • Praticar atividades físicas regularmente.
  • Manter o quarto escuro, silencioso e confortável.
  • Procurar avaliação médica diante de insônia persistente, roncos intensos ou sonolência excessiva durante o dia.

Prevenção começa nos hábitos cotidianos

Quando falamos em prevenção do câncer, normalmente pensamos em não fumar, evitar bebidas alcoólicas, manter o peso adequado, praticar exercícios e realizar exames preventivos quando indicados.

Todos esses fatores continuam sendo fundamentais e possuem evidências científicas mais consolidadas de redução de risco.

O sono também merece espaço nessa discussão, não porque possamos garantir que dormir bem impeça o desenvolvimento de tumores, mas porque ele participa de diversos processos biológicos essenciais para a saúde.

Cuidar do sono é cuidar do organismo como um todo. Em uma sociedade que frequentemente valoriza a produtividade acima do descanso, precisamos compreender que dormir não é perda de tempo. É uma parte indispensável de uma vida saudável.

(Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal HojeDiario.com).

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE